DOI: https://doi.org/10.35520/mulemba.2020.v12n22a39826 LITERATURA, VIAGEM E TRADUÇÃO CULTURAL: SUSPENSÃO EM CURSO LITERATURE TRAVEL AND CULTURAL TRANSLATION: ONGOING SUSPENSION LITERATURA, VIAJE Y TRADUCCIÓN CULTURAL: SUSPENSIÓN EN CURSO Rita Chaves (Universidade de São Paulo) Nazir Ahmed Can (Universidade Federal do Rio de Janeiro / FAPERJ / CNPq)1 Pedro Serra (Universidad de Salamanca) Rebeca Hernández (Universidad de Salamanca) Marlon Augusto Barbosa (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Previsto para o mês de junho, o lançamento do número 22 da Revista Mulemba só agora pode ser realizado, em um reflexo direto da conjuntura que não deixa indiferente o campo da reflexão. Entre tantas urgências, tivemos que descobrir outras formas de comunicação, buscando sob a pressão das novas demandas recursos que propiciassem a interlocução exigida pelo exercício intelectual. Está em tudo isso a explicação para que alguns autores não tenham conseguido complementar os artigos com as indicações de pareceristas, e, em outros casos, não tenham sequer podido finalizar seus textos. Em síntese, os efeitos objetivos da situação que nos atinge a todos recaíram na preparação desse trabalho coletivo, que só foi possível graças à insistência daqueles que, ultrapassando o desalento, empenharam-se intensamente na conclusão dos trabalhos, aos quais redobramos o nosso reconhecimento. Surpreendidos pela pandemia, tomados pelo espanto e pelo temor, não conseguimos escapar aos impactos de toda natureza que passaram a cercar o nosso cotidiano, saltando das questões práticas para o imaginário. Instalou-se, repentinamente, a necessidade de reduzir e 1 “A participação no presente número, como coorganizador e coautor, contou com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ – Programa Jovem Cientista do Nosso Estado, processo nº E-26/203.025/2018), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq – Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Nível 2, processo nº 307217/2018-3) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Finance Code 001, Projeto 88887.364731/2019-00, CAPES- PrInt).” A revista Mulemba utiliza uma licença Creative Commons - Atribuição- Não Comercial 4.0 Internacional (CC-BY-NC). 8 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X Apresentação Rita Chaves, Nazir Ahmed Can, Pedro Serra, Rebeca Hernández e Marlon Augusto Barbosa vigiar os nossos passos, de traçar estratégias que nos alimentem a esperança de ludibriar um inimigo tão invisível quanto feroz, lembrando-nos sempre que a vida, tal como conhecíamos, está interrompida. Esse conjunto de sensações chegou-nos quando estávamos justamente no exercício de preparação deste número à volta de temas e de tópicos ligados ao movimento que, em muitas dimensões, há séculos mobiliza a reflexão intelectual nos mais variados campos do conhecimento. Em uma intervenção em 2001, Ruy Duarte de Carvalho ressaltava: “Viagem e literatura andam juntas desde a confirmação desta, e a etnografia é da viagem que nasce”. Atravessado pela noção de transumância, que tão bem tratou em seus textos, ele esteve sempre atento à geografia e, em certa medida, algumas de suas formulações serviram de mote para este número, cuja chamada agora reproduzimos: a paisagem colocou-me questões: para lidar com ela, para entendê-la, para fazer da paisagem e da sua decifração o lugar da vida, só sabendo como a viam, liam, diziam os que a olhavam a partir de outras línguas, de outras linguagens, de outros entendimentos moldados por essas mesmas paisagens e por essas mesmas línguas............. arranjar uma maneira de dizer dessas pai- sagens, em português, o que noutras línguas se diria delas ou o que elas di- ziam noutras línguas................. como aliás não podia deixar de ser................. (Ruy Duarte de Carvalho, a câmara, a escrita e a coisa dita... fitas, textos e palestras, Lisboa, Cotovia, 2008). Prática intrinsecamente ligada à criação artística, a viagem tem sido ao longo da história um dos principais temas de escrita e objetos de análise no campo literário. Algumas especifi- cidades contextuais dos países africanos de língua portuguesa nos convidam, todavia, a dar continuidade a uma discussão que se renova em permanência. A relevância concedida às questões ligadas ao deslocamento de imensos segmentos das populações africanas para outros continentes não deve, por exemplo, apagar uma característica fundamental do desenvolvimento histórico do continente que é a intensa circulação de forças demográficas responsável por uma “extraordinária reorganização dos espaços, da sociedade e da cultura que opera por muitos desvios e oscilações”. (MBEMBE, 2014, p. 141). Essa “casa sem chaves”, na bela imagem do filósofo camaronês, foi, como sabemos, palco de incursões de outros povos que souberam e puderam desdobrar as várias formas de invasão, atingindo em cheio o coração do simbólico. Desde os primeiros momentos do que foi muitas vezes apresentado como um encontro, sobretudo entre os séculos XVIII e XX, a representação do continente africano trazia sinais da tensa relação entre dois blocos de oposição (“nós” e “eles”), inscritos em grande medida em narrativas de viajantes ou colonos. Por via de um avassalador processo de estereotipagem, que legitimou no plano simbólico a invasão, a violência ritualizada e a dominação territorial, a literatura vinculada aos antigos impérios 9 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X europeus domesticou a geografia africana, afastou-a da história e inclusive retirou o “outro” local do horizonte de possíveis da humanidade. Ao projetarem no século XX um pacto com a história dos deserdados e um movimento de reapropriação da geografia, os autores africanos sublinharam a necessidade de libertação política, reafirmaram o desejo de reinvenção identitária e viabilizaram o surgimento de novas formulações estéticas e epistemológicas. Além da presença massiva de personagens estrangeiras, diversos espaços internacionais (africanos, europeus, americanos e asiáticos) foram sendo incorporados com o passar dos anos por um número significativo de narrativas, confirmando a vocação inclusiva que desde cedo orientou a produção literária do continente. A esta preocupação com o trânsito pelo mundo se junta a aposta pela mobilidade em espaços nacionais até então inexplorados no campo artístico. Quando lidos pela ótica das populações mais segregadas, como aquelas que na epígrafe são sugeridas por Ruy Duarte de Carvalho, estes espaços se afiguram tão distantes quanto qualquer outro cenário internacional. Paralelamente ao debate sobre os modos de figuração da viagem e do encontro/embate com o “outro”, a reflexão sobre certos problemas de natureza institucional torna-se necessária. Devido às dificuldades materiais que afetam o continente, o autor africano deve lidar com um desafio suplementar em seu processo de criação: apresentar uma realidade que lhe é próxima a um leitor quase sempre distante. Para aprofundar a complexidade, este mesmo leitor costuma ter apenas o distorcido quadro de referências oferecido pela mídia, pelos panfletos turísticos ou pela literatura imperial. Em contextos de produção atravessados por uma espécie de contradição constitutiva, o autor depara-se com dilemas semelhantes aos do tradutor. Como tem observado a crítica e a teoria que se ocupam das trocas entre estes dois campos de saber, apesar de o trabalho do produtor literário não corresponder à tradução clássica que se concretiza em outra publicação, mas sim a um gesto de mediação cultural executado no interior da própria obra, o escritor, tal como o tradutor, vê-se invariavelmente forçado a escolhas. Dependendo das decisões tomadas, assume uma postura reivindicativaou, pelo contrário, exótica. O processo de mediação torna-se ainda mais agudo quando em jogo estão textos que focalizam travessias a universos “alheios” ao do próprio autor. Assim, sem perder de vista os contextos históricos, geográficos, literários, culturais e institucionais de cada campo literário, que motivam distintas formas de narrar o deslocamento, o próximo número da Revista Mulemba convida a uma reflexão sobre o impacto da viagem nas representações do e pelo continente. Considerando a circulação e suas conexões em sentido amplo (literal e metafórica, temática e autobiográfica) e ressaltando seus desdobramentos (nas figuras do forasteiro, do deslocado, do estrangeiro, do exilado, do refugiado, do expatriado), propomos uma discussão que, centrada nas literaturas africanas e/ou em textos que tenham a África como objeto, incida em alguns dos seguintes aspectos: • a viagem como elemento constitutivo das literaturas africanas; 10 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X Apresentação Rita Chaves, Nazir Ahmed Can, Pedro Serra, Rebeca Hernández e Marlon Augusto Barbosa • literaturas africanas, espaço e tradução cultural: problemas e desafios teóricos; • a dimensão institucional: produção, recepção e circulação do objeto literário africano; • projeções, desilusões ou “viradas epistemológicas” inspiradas pelo deslocamento; • o deslocamento interno de personagens, narradores e/ou autores africanos: impacto das noções de distância, proximidade e insilio. • o estrangeiro em territórios africanos: fascínio, abjeção e formas de ambivalência. • travessias voluntárias: personagens, narradores e/ou autores africanos e suas formas de relação com o espaço internacional. • imigração, exílio e refúgio: figuração do deslocado africano em territórios internacionais; • representação dos espaços africanos em outras tradições literárias; formas contemporâneas de exotismo e orientalismo. Alguns meses após o lançamento da chamada, a perturbação sobre o espaço interferiu intensamente em nossa relação com o tempo: substituiu-se o compasso da aceleração pela morosidade, resultando em adiamentos e atrasos. Os meses assim passados provocaram a tentação de reconsiderar paradoxos alimentados por muitas indagações, tendo em conta os dilemas em torno do tema proposto para o dossiê, resultado da relação com uma produção literária que contribuiu intensamente para uma epistemologia constituída pelas muitas dimensões da viagem. Entre as perguntas que se desdobram, algumas nos tocam de perto: como falar do motivo da viagem quando enfrentamos todos e, em uma indiscutível proporção, os dilemas postos pela imobilidade? Como encarar as intrincadas relações entre viagem, experiência e escrita quando, depois de décadas sob o signo do deslocamento, seduzidos pela mobilidade como prática social e como objeto de reflexão nas mais diversas áreas do conhecimento, somos condenados à fixação e ao limite do espaço privado? Nessa temporada de medo, ficamos divididos entre a convicção de estarmos diante de um novo tempo e o apego à rede de referências em que nos formamos. Como esquecer a Odisseia e Ulisses fundando padrões ainda vigentes em sua deambulação antes do retorno à casa? Como ignorar a consagração da caravela como um ícone da expansão ocidental ainda em curso? E o que fazer com conceitos como globalização e com a ideia de aceleração e proximidade que, no limite, defende a crença em um mundo sem fronteiras? Simultaneamente, agora, fatos e sensações alteram ritmos, espalham perplexidades e desfazem parâmetros. Em lugar do gosto pelas travessias, o travo da cautela. No mundo da linguagem, a transformação é sensível, pois em nosso léxico, tão frequentado por palavras como trânsito, fronteiras (a serem cruzadas), movimentos, ganham materialidade expressões como confinamento, distanciamento social, bloqueios, ou seja, vivemos desde o começo desse ano de 2020 o clima de suspensão. Em seu tão sintético quanto inquietante Por uma antropologia da mobilidade (2010), Marc Augé ativa a ideia do mundo-cidade, alertando-nos para uma mobilidade sobremoderna que se concretiza na grande circulação de indivíduos, produtos e sentidos. No panorama atual, ela delineia-se como 11 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X uma miragem, situando-nos no cais da espera, um tanto aflitos no enfrentamento de estranhos desafios. Tudo nos leva a pensar, muitas vezes, na inutilidade dos nossos atos, na vanidade de gestos devotados à arte e, em nosso caso particular, à literatura. Que sentido reconhecer na escrita quando a grande arte é a de sobreviver? Ou, mais precisamente, escapar. Entretanto, a angústia nascida do sentimento de asfixia carrega-nos na direção dos impasses vividos no universo das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, o objeto em foco nas páginas da Mulemba. Os sinais da clausura ao redor logo nos conduzem às condições nas quais surgiram as obras que marcam o nascimento dessas literaturas. Ou seja, não podemos deixar de associar nossa experiência de confinamento à produção de uma parte decisiva do repertório literário africano em língua portuguesa. A biografia de autores significativos como Uanhenga Xitu, Rui Nogar, Pepetela, Luís Bernardo Honwana, José Luandino Vieira, José Craveirinha, Costa Andrade e Alda do Espírito Santo, para ficarmos com alguns poucos exemplos, dá-nos notícia dos espaços de exceção como local predominante da escrita de suas obras. Com os seus autores transitando entre a prisão e o exílio, alternando-se com a clandes- tinidade ou o maquis, as literaturas africanas contracoloniais são fruto de experiências em que o particular se combina com o excepcional, motivando frequentemente uma respiração pautada pela situação de asfixia. Paralelamente, em forte contraposição, nas narrativas firmavam-se sugestões de amplitude. Em A vida verdadeira de Domingos Xavier, preso, o protagonista não cansa de recordar a força das águas livres do rio Kwanza. Em Muana Puó, uma espécie de fábula, Pepetela escolhe dois seres alados para viver o enredo. Em João Vêncio: os seus amores, em que a fala solta do personagem principal corre muitas paisagens, no enunciado e na enunciação as marcas do enclausuramento se condensam. Como outros, foi escrito por Luandino no Campo Prisional do Tarrafal do Chão-Bom, o tristemente famoso campo de concentração para os africanos que se rebelavam contra o sistema colonial português. Como sucedeu com tantos, o processo da escrita desenvolvia-se entre a exiguidade do espaço físico e a amplidão do espaço que a utopia formulava. Os quadros pintados pelo exílio e/ou pelo insílio também se viam emoldurados pelo confronto entre a aridez do presente e o prenúncio de um futuro tingido pelas cores da libertação. Lidando diretamente com os contornos do tempo, essas viagens tinham como território a contraposição entre um presente amargo e um futuro propício. O confinamento divisava-se como uma estação, isto é, definido pelas leis da provisoriedade, cuja extensão estava diretamente ligada aos sentidos e à energia da resistência. Ancorados na plataforma do agora, preparava-se o desembarque no depois. Sob o signo da utopia, cada viagem condensava-se, fazendo e desfazendo roteiros. Depois das independências, o deslocamento desdobrou-se como motivo, como tema e como modo de produção, realizando-se no plano interno e externo, atualizando-se no jogo dos 12 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X Apresentação Rita Chaves, Nazir Ahmed Can, Pedro Serra, Rebeca Hernández e Marlon Augusto Barbosa dias e nas páginas dos muitos livros. Em Vou lá visitar pastores e em Desmedida, Ruy Duarte faz da mobilidade um dado estruturante e a converte em método analítico. Nas mais diversas modalidades literárias, as travessias ganhavam corpo em títulos tão variados como A inadiável viagem, de Luís Carlos Patraquim, Índicos indícios, de João Paulo Borges Coelho, ou No tempo das casuarinas, de José Luís Mendonça, apenas alguns dos muitos exemplos que poderíamos convocar. De muitas maneiras, o processo de ocupação do território outrora dominado por forças estrangeiras inscreve-se no campo do imaginário em textos que palmilham o solo nacional e, ainda, em muitos momentos, investem para o exterior. Assim vemos nos dois volumes da obra citada de Borges Coelho, tal como em Yaka, de Pepetela, em cujo enredo desenha-se o itinerário de Alexandre Semedo e sua família, dividida nas relações com o país que nasce. E aqui temos apenas alguns modos de realização das viagens. E do significado que elas carregam. No centro dessa espécie de vertigem que a contraposição alimenta, vemo-nos divididos entre a situação de cativeiro como selo de criação de muitas páginas das Literaturas Africanas e a presença dominante da viagem e das paisagens alargadas a que elas nos conduzem. Impossível, entretanto, não detectar no seu movimento a força de uma utopia que não se demitiu a despeito de tantas dificuldades e tantas perdas. A “melancolia de esquerda” de que nos fala tão bem o historiador Enzo Traverso (2018), refletindo um inegável sentimento de derrota, sem dúvida presente nessas páginas, não dissolve por completo a esperança que acionou as transformações possíveis e, ao fundo e ao cabo, desencadeou as revoluções interrompidas. Confrontando e aproximando os conceitos de utopia formulados por Bloch (“uma prefiguração”) e Celan (algo aberto e livre), o historiador italiano vê no colapso das revoluções do século XX a sua própria inviabilidade como um “ainda não”, prevalecendo a sua concepção como um lugar que “já não existe mais”, ou seja, como uma “u-topia”. A conclusão, entretanto, empurra-nos para a frente, pois, segundo ele: “As utopias do século XX ainda precisam ser inventadas” (TRAVERSO, 2018, p. 251). Guardada em sua própria irrealização, essa possibilidade subsiste nas Literaturas Africanas, fazendo da escrita um lugar de memória (da derrota, frequentemente) e, ao mesmo tempo, de aposta na resistência. Mais uma vez, a contradição mostra-se fértil nas lições que oferece. Essa constância do trânsito orienta-nos a perceber certas formas de persistência abrigadas na escrita e que na literatura podem ser encaradas como uma vocação e um destino, características que nos recordam a hipótese de enfrentar o sentimento de vazio que se desenha diante de nós. A contraposição entre a prisão e os espaços amplos que estão na origem da consolidação das literaturas africanas remete-nos a uma bela imagem de Mia Couto, que resgata no escritor o papel de tradutor de sonhos, aqui entendidos como daquelas vidas localizadas no caos, ou seja, aquele espaço “em que a nossa vida podia ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um destino” (2011, p. 12). Na sequência, ele observa que no escritor vive o desejo de “anular o tempo e fazer adormecer a morte” (2011, p. 12). Na formulação do escritor moçambicano percebemos pontos 13 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X de contato com um dos clássicos da literatura francesa: em seu roteiro rememorativo, Marcel Proust, na complexidade de sua busca, vai ultrapassar as águas de um romance interessado apenas em captar momentos felizes para confrontá-los com o desbotado presente e nos trazer uma narrativa em que se trava, nas palavras de Jeanne Marie Gagnebin, uma “luta contra o tempo e contra a morte através da escrita – luta que só é possível se morte e tempo forem reconhecidos, e ditos, em toda a sua força de esquecimento, em todo o seu poder de aniquilamento que ameaça o próprio empreendimento do lembrar e do escrever” (2006, p. 146). O nosso insólito presente, em que a morte se anuncia como uma presença constante, remete-nos também a Walter Benjamin, que nos faz pensar como nos embates com o concreto a literatura não perde o seu apego a uma luta que é fundamentalmente contra a morte, empenho que se desdobra e renova quando “as ações da experiência estão em baixa” (1994, p. 114). No célebre “Experiência e pobreza”, referindo-se ao silêncio que marcava os combatentes em seu regresso dos campos de batalha da guerra entre 1914 e 1918, ele afirmava: “Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes” (1994, p. 115). Talvez não seja absurdo pensar que estejamos agora vivendo de modo iniludível a radicalidade da baixa da experiência. O caráter inapreensível do inimigo maior adensa o medo e nos impele não à luta, mas às mais obcecadas tentativas de fuga. O que queremos e precisamos é escapar, objetivo que esfacela qualquer ilusão épica de nossos gestos. É ainda com Benjamin e, sobretudo, com suas reflexões sobre o narrador que podemos pensar no lugar que a viagem ocupa em cada matriz e, ao mesmo tempo, reavaliarmos a sua dimensão também relativamente aos limites que a cercam, revendo o sentido de privilégio integrado a modos de ser e estar que pareciam generalizados. Hoje, quando a imobilidade e o isolamento determinam a existência, impedidos de recuperar a hipótese de intercâmbio que figura na base do ato de narrar, lamentando a impossibilidade do deslocamento, podemos perceber também o que acompanha o direito de ir e vir sempre aludido no catálogo liberal. Presente na Bíblia, decisiva nas epopeias clássicas, como a Odisseia e Os Lusíadas, fulcral em textos fundadores do romance, como Robinson Crusoé, a viagem inscreveu-se também como método em disciplinas como a antropologia. Seu papel, no que Mary-Louise Pratt (1999) identificou como esforço planetário, pode ser investigado nos famosos textos de exploradores que, lançando as bases para a aventura colonial, definiram a fisionomia do mundo. De tão forte e onipresente, o fenômeno nos fez esquecer o caráter seletivo que a ele esteve colado. Poucas vezes paramos para perguntar: quem viaja? E em que condições? Restritos a um espaço delimitado, sem podermos fazer uso do passaporte, documento em que se figuram tantas primazias, somos alertados para aspectos a que não demos relevo na proposta de ementa que formulamos. As circunstâncias que todavia se criaram apontam para 14 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X Apresentação Rita Chaves, Nazir Ahmed Can, Pedro Serra, Rebeca Hernández e Marlon Augusto Barbosa uma dimensão da vida que a pandemia, atrelada à força dominante do capitalismo, acentua: a desigualdade. O espaço, como tão bem sintetizou Milton Santos, é a acumulação desigual de tempos (SANTOS, 2007). Como tal, a relação que estabelecemos com a escrita ou com a viagem, até mesmo em situações de confinamento, funda-se no desequilíbrio. A quebra do caráter totalizante, que barra a “sedimentação progressiva das diversas experiências e uma palavra unificadora” (GAGNEBIN, 2006, p. 10-11), enraizada na mudança de ritmos e na cadência temporal, adensou-se na cristalização da injustiça social com seus poderosos mecanismos de exclusão. Hoje, como tem alertado as autoridades no campo da saúde, patenteiam-se os sinais de que o enfrentamento da pandemia não pode ignorar a urgência de uma transformação que passe pela redução das desigualdades sociais. No terreno das contradições, a que nos referimos várias vezes, chegamos a mais uma: a da literatura, e da viagem junto com ela, pela visibilidade que lhes assiste, como um espaço de privilégio. Talvez seja necessário, pensando na condição dos refugiados, esses viajantes que tentam escapar da morte e com ela transitam por todo o tempo, desprovidos do direito ao relato, inventarmos formas de sobrevivência. Caso contrário, repetindo outros momentos da história, quando não foi capaz de recriar um novo horizonte, a literatura, mesmo quando munida das melhores intenções, será cúmplice da anulação do que resta. ***** A sequência de artigos que integram o dossiê vem exprimir a dimensão multifacetada que o tema da viagem guarda. Os autores, a quem reiteramos o agradecimento pelo empenho em um momento tão áspero, confirmam, com suas contribuições, a potencialidade do debate que, como sugerimos antes, ganha outros aspectos em meio a essa situação que nos corta a mobilidade e limita as hipóteses do improviso e do inesperado tão preciosas para o exercício da reflexão. A sempre incômoda questão dos prazos pegou-nos precisamente na fase do primeiro impacto e motivou o atraso da publicação. Hoje, sob a pressão dos limites e a imperiosa necessidade de pensarmos as contingências que desabaram sobre as nossas agendas, sabemos que os conceitos, a tipologia, as implicações da circulação exigem uma destreza mental que nos compense da imobilidade física que inviabiliza o exame em presença de tantos objetos. A interlocução, tão cultivada no universo das ciências humanas e sociais, vê-se agora buscando outras maneiras de se fazer presente. Os artigos aqui estampados foram ainda escritos sob a marca de uma epistemologia calcada na aceleração dos fatos que era própria do nosso ritmo, dominado por outros padrões temporais e espaciais. Trazem, portanto, leituras de viagens cuja materialização se organizava segundo outros compassos, à volta de outros códigos. Estamos, tudo parece anunciar, diante de metamorfoses que atingem de modo inequívoco as redes de sociabilidade e os códigos de comportamento que julgávamos consolidados. A transição para esse novo normal, que se anuncia, entretanto, parece-nos já também nos advertir para a manutenção das cores da desigualdade, 15 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X como já referido, que se evidenciam no itinerário dos movimentos migratórios. Seja no plano do coletivo, seja no domínio individual, elas continuarão a tingir percursos como os de Cartola, Jende e Neni Jonga, cujas curvas são captadas nos textos de Sheila Jakob e Sandra Sousa. Em Lisboa ou Nova Iorque, a marginalização será a nota de seus destinos. Se é verdade que a crise apresenta uma espécie de capa totalizadora a cobrir tantos quadrantes do planeta, sabemos de antemão que a sua gestão não eliminará, sequer tende a diminuir, certas diferenças redutoras de desejadas trocas. Até mesmo no plano institucional, a circulação conhecerá outros entraves e, provavelmente, o desequilíbrio no espaço da tradução, fenômeno que afeta a constituição do sistema literário nos vários países de língua portuguesa, pode ser aprofundado. Do mesmo modo, os sentidos e as fronteiras da “lusofonia” poderão ser esboçados segundo outros parâmetros, condicionados por redes de cooperação e projetos coletivos. Ao fim e ao cabo, estamos tateando no campo das impressões e contamos ainda com poucas balizas para delinearmos o que virá e o que poderemos ser nesse mundo que já parece se anunciar como outro, mas cujo traçado revela-se ainda inapreensível. Como também já alertamos, a complexidade que o tema proposto ganhou levou-nos a pensar no apoio da literatura e completar o nosso dossiê com a presença direta de dois escritores, para quem a viagem constitui uma presença constante, seja na vida como na obra que nos oferecem. Ruy Duarte de Carvalho, enquanto viveu, fez do trânsito não só um objeto mas também um móvel de sua reflexão e de seu modo de estar no mundo. Nascido em Santarém, em Portugal, fez-se angolano e vinculou sua cidadania e seu exercício intelectual ao conhecimento de Angola, construído em ligação direta com as várias regiões do país, delas nos aproximando também por intermédio de sua instigante produção literária e cinematográfica. Seu desapare- cimento em 2010 deixou inacabada a obra Paisagens efêmeras, cujo título aponta na direção do espaço que foi brilhantemente explorado na trilogia “Os filhos do Próspero”, assim como em Desmedida, que em suas páginas abriga um percurso singular por terras brasileiras. Em seu trabalho como antropólogo, a viagem, definida a priori como um método de pesquisa, inseriu-se na forma de olhar o outro, esse ser jamais completamente apreensível porque vivo e em constante processo de mudança. A consciência dos limites de sua investigação, realizada sempre nos moldes de um acentuado rigor, conferia à obra do Ruy Duarte de Carvalho uma inequívoca capacidade de penetração por territórios muito exigentes. O sentido do movimento, inscrito em seu percurso, propiciava a descoberta e/ou o reconhecimento da invenção como conhecimento. Mais que um escritor viajante, um cineasta viajante ou um antropólogo ele pode ser identificado como um ser em viagem, por terrenos vários e vastos. Convidado em 2001, para participar de um evento na Póvoa de Varzim, sobre a relação entre literatura e viagem, ele observava: “Talvez porque toda a literatura tenha talvez que abrir-se sempre ao que há para além, à aventura e ao mundo e porque escrever é sempre partir” (2008, p. 121). Possivelmente por isso, nesse momento em que estamos feridos no nosso desejo de nos deslocarmos, não 16 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X Apresentação Rita Chaves, Nazir Ahmed Can, Pedro Serra, Rebeca Hernández e Marlon Augusto Barbosa podemos discordar do escritor quando ele diz “o mundo, afinal, é preciso inventá-lo, caso contrário é igual por toda a parte” (2008, p. 121). Sua presença neste dossiê se concretiza com o belo, curto e denso texto “Talvez porque na vida é como uma viagem”, de 2001, publicado inicialmente no volume A câmara, a escrita e a coisa dita ... fitas, textos e palestras, editado em 2008 pela Editora Cotovia. Como o livro não foi distribuído no Brasil, a autorização para incorporá-lo foi solicitada à família do autor. Reiteramos aqui os agradecimentos. A excelente companhia dos escritores aqui também está materializada na colaboração do Mia Couto, outro autor que tem nos deslocamentos um motivo frequente em sua ficção e não só. Terra sonâmbula, de 1992, e Venenos de deus, remédio do diabo, de 2008, são apenas dois de seus títulos em que a noção de travessia é dominante. Mas o próprio tema da viagem tem sido explorado por Mia nos chamados textos de intervenção e/ou nas crônicas que integram a sua atividade como escritor e como cidadão. Para trazer a sua voz, escolhemos uma crônica de Pensageiro frequente, livro inédito entre nós, que reúne alguns de seus textos publicados na Índico, a revista de bordo da companhia Linhas Aéreas de Moçambique. A inclusão de uma crônica nesse número se deve à generosidade do autor, a quem, mais uma vez, agradecemos. Em “Um mar de trocas, um oceano de mitos”, o cronista desvela um mundo de diálogos processados nas águas cálidas do oceano que banha o seu país. Nesses intercâmbios tão ricos, ainda que em muitos momentos tão penosos para alguns, é possível detectar a força de “outros passageiros” e perceber a rota de “outras globalizações”. Sem ignorar o caráter predatório das viagens de exploração e os efeitos da colonização que a elas se seguiu, o escritor traz-nos outras marcas desse mosaico no qual se reflete um jogo de mestiçagens culturais como eixo gerador de uma “desidentidade”, que se solidifica na capacidade de “estabelecer trocas e negociar destinos”. Na sequência dos textos selecionados no caudaloso repertório desses dois escritores que comprovam tão fortemente a relevância do tema, temos 8 artigos a compor o dossiê e mais três que abordam temas e tópicos expressivos dos problemas em torno dos quais se constitui a leitura das Literaturas Africanas. A escolha de questões ligadas à constituição do cânone das literaturas africanas leva Marco Bucaioni a ter em conta uma concepção especial de viagem, detendo sua atenção nos trânsitos que envolvem as literaturas africanas para fora de seu espaço de criação. Com a marca da indagação já no título, o artigo “Quem constrói o “cânone internacional” das literaturas africanas em português? tradução, instituições e assimetrias norte/sul” propõe seguir percursos realizados pelas obras literárias e a seus ecos na composição de paradigmas que definem a consagração e a mundialização desse repertório. Tendo como eixo o conceito de literatu- ra-mundo, trabalhado pelo Warwick Research Collective e a reflexão de Pascale Casanova, presente em A República Mundial das Letras, o autor discute problemas diretamente associados à instituição literária e observa o agenciamento operado pela Europa na gestão de obras e autores africanos. A abordagem ampliada incorpora o papel da tradução e dos estudos universitários na 17 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X sagração canônica do repertório. A base de dados de traduções, como bem registra Bucaioni, fica à disposição para futuras pesquisas que poderão “investigar, entre outras coisas, as trajetórias dos tradutores das literaturas africanas em português, o seu papel como agentes consagradores e o papel das instituições académicas portuguesas, brasileiras e de outros países na mundialização destas literaturas”. Atentas à complexidade dos trânsitos entre espaços e tempos que marcam as relações tecidas sob o signo do império, Sheila Jacob, em “Uma trajetória de desencontros e recomeços”, e Sandra Sousa, em “A man can find a home anywhere”: african mobility and the fall of dreams in ‘Behold the Dreamers’”, selecionam narrativas literárias que, escritas em diferentes línguas europeias, permitem examinar o jogo de mudança e permanência que se atualiza para além das rupturas que procuramos ver nos eventos históricos. Apoiada em Hall e Quijano, Sheila Jakob percorre as páginas de romances de Djaimilia Pereira de Almeida para observar a força das relações de poder que prolongam as situações de dependência, com repercussão nas experiências de deslocamento que solicitam constantes renegociações de atos e sentidos. Explorando outros territórios culturais africanos, Sandra Sousa vê confirmada no romance Behold the Dreamers, do camaronês Imbolo Mbue a “complexa rede de ilusões, desilusões e fracasso” que se inscreve na trajetória dos imigrantes. Temos em duas línguas elementos que, atestando o preço da alteridade, compõem o drama de quem, por motivos variados, precisa sair do continente africano. Nos dois casos, se as pressões resultam de situações particulares, a viagem é determinada pelas condições materiais em vigor na África Subsaariana que, na síntese de Achille Mbembe, são marcantemente afetadas pelo “endurecimento da pressão monetária e os seus efeitos de revivificação dos imaginários do longínquo e das práticas históricas de longa distância; a concomitância da democratização, da informalização da economia e das estruturas estatais; a difração da sociedade e o estado de guerra. (2014, p. 141). No quadro das relações entre os textos e os contextos, o polêmico tópico da lusofonia está no centro do artigo de Josyane Malta Nascimento. Acompanhada por Mia Couto e Ondjaki, percorre “as metáforas do viajante e a do estrangeiro, da luso-afonia e da língua desportuguesa”, procurando apreender a dinâmica do conceito. “O incendiador de caminhos”, texto escrito justamente para um congresso sobre literatura de viagens, e O céu não sabe dançar sozinho constituem o solo no qual a autora procura refletir sobre as intrincadas relações que as literaturas não lusitanas estabelecem com a língua portuguesa. Ao visitar os sentidos que o uso da língua do colonizador assume nos diversos momentos da história desses laços, Josyane Malta Nascimento expõe as tensões geradas pela natureza violenta do processo, sem ocultar a tentação de certos olhares que apostam no vetor da aproximação. Do jogo, chegamos, nas palavras da autora, a uma espécie de síntese assim formulada: “A viagem termina onde tudo começa: pelo modo como olhamos o outro, e pelo modo como esse olhar nos encontra”. Luanda e o mar que cerca a cidade, mais precisamente as águas que envolvem a Ilha 18 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X Apresentação Rita Chaves, Nazir Ahmed Can, Pedro Serra, Rebeca Hernández e Marlon Augusto Barbosa de Luanda, configuram-se como o espaço da reflexão de Higor Afonso. Em “Entrelaçamento dos sujeitos e memória ancestral em ‘Náusea’, de Agostinho Neto”, seleciona uma narrativa paradigmática da Literatura Angolana para discutir problemas constitutivos desse repertório, isto é, aqueles que giram em torno da memória e da ancestralidade. Enfrentando o desafio do comparatismo como método, opta por uma linha de radical interdisciplinaridade ao buscar o diálogo com a física quântica e com a geografia para lidar com a permanência de tradições, filosofias e tecnologias dos grupos dominados que, pela lógica ocidentalizada dos dominadores, deveriam ter desaparecido. Nas belas imagens do conto, o autor encontra explicação para a sua insólita persistência, fato que se pode tributar à capacidade demonstrada pelos sujeitos subalternizados que “não se limitam à condição de paisagem. Constroem espaços que vivem, que resistem e que ressoam. Espaços que em alguma medida funcionam como a erosão, batendo a água na telha até que a penetre em goteira”. Saltando para o outro mar das Literaturas Africanas, em “Um mar de brumas em A triste história de Barcolino: exílios internos de morte simbólica”, Maiane Pires Tigre e Inara de Oliveira Rodrigues transportam-nos para o Índico, cenário do exílio interno de Barcolino, personagem condenada aos impasses de quem “sobrevive nas bordas da marginalidade”. No texto de Lucílio Manjate, as estudiosas identificam os sinais que indicam algumas mudanças no panorama da Literatura Moçambicana, destacando que “embora a poesia esteja no projeto matricial do surgimento dessa geração, com um número superior de obras e autores publicados, a novela condensa a energia de novos escritores que tanto tematizam o cotidiano quanto denunciam, de maneira mais ou menos direta, a realidade local, com os seus desastres naturais, problemas sociais, sanitários, dramas humanos e existenciais que podem ser comparados ao de qualquer outro país”. A finalizar o dossiê, dois artigos nos recordam a força da viagem na composição do imaginário que não deixa de rondar as relações entre o continente africano e suas ex-metrópoles, e muito especialmente Portugal, país profundamente vincado pela expansão marítima que traçou a sua poderosa gesta imperial. A combinação entre as limitações físicas do território e a tradição camponesa em certa medida funcionou como um estímulo para a conquista de outras terras e o além-mar tornou-se um fortíssimo componente de orgulho pátrio, fazendo com que a experiência colonial se colasse ao selo da identidade nacional. O famoso mapa projetado por Henrique Galvão, acoplando as colônias ao pequenino desenho do país na Europa, e os slogans “Portugal não é um país pequeno” e/ou “Do Minho ao Timor” sinalizam a vontade de, na fusão da história com a geografia, projetar um destino e sua grandeza. Desse sonho seria evidentemente difícil desembarcar. Ancorado na agora ex-metrópole, o espaço preferencial dos romances de Djaimilia Pereira de Almeida, como aqui vimos na abordagem de Sheila Jakob, em “O ‘romance português de retornados’ – a viagem de retorno ao império colonial português”, Tania Macêdo nos traz outras 19 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X faces de uma espécie de síndrome do império que parece ainda passear pelas ruas lusitanas. Com o foco centrado na visão dos antigos colonos, no chamado “romance português de retornados” desfilam imagens de um insistente apego a páginas que deveriam ter sido viradas nas transformações históricas que as lutas de libertação e, na sequência, a Revolução dos Cravos e a consagração das independências motivaram. Em contraposição ao apelo nostálgico plasmado em A balada do ultramar (2009), de Manuel Acácio, a pesquisadora nos dá notícia da problematização do projeto colonial que ganha corpo em narrativas como As naus, de Lobo Antunes, As sete estradinhas de catete, de Paulo Bandeira Faria, O retorno, de Dulce Maria Cardoso ou ainda Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo que, “em sua denúncia sobre a violência do Império Colonial Português, contribuem para discutir de forma consequente questões que, infelizmente, ainda estão ausentes dos grandes debates nacionais”. Em contraposição à ideia de ausência de uma efetiva discussão acerca de grandes questões no presente português, que, na visão de Tania Macêdo, é ainda marcado pelo mal-estar resultante do passado colonial e do imaginário dos retornados, Margarida Calafate Ribeiro, em “Viagens no contemporâneo – pós-colonialismo, cosmopolitismo e programação”, aponta para um avanço na direção de um novo futuro na sociedade portuguesa em sua relação com a experiência imperial, vislumbrando no Programa da Fundação Calouste Gulbenkian elementos significativos para a formulação de um novo cânone a surgir do debate à volta do pós-colonial em Portugal e na Europa. A partir de um percurso minucioso, a autora oferece-nos uma entusiasmada abordagem da realização, na qual se explicita o argumento de que, articulando-se à visão do “Sul como produtor e ator artístico, económico, político e de pensamento inovador gerador de significativos pólos culturais”, a emergência da policentralidade do mundo global orienta a programação cultural de António Pinto Ribeiro e se revela fundamental na definição da proposta de “olhar para o futuro para fazer o presente e compreender o passado e não o seu contrário”. Como está previsto, este número abriga artigos que não se prendem ao tema proposto pelo dossiê. Os textos aqui incorporados, todavia, estão conectados com as questões da exclusão, tópico que se situa à volta de uma prática literária que não perde de vista a ligação com a sociedade. O primeiro deles, “Ser mulher e negra nas Áfricas. Combates feministas nas literaturas”, obviamente busca se inserir nas discussões muito presentes nos variados terrenos do saber que enfocam as redes entre escrita, gênero e raça. O termo “combate” presente no título antecipa a dimensão empenhada do artigo, que procura contemplar a produção feminina também da diáspora africana, investindo na percepção das diferenças dos embates enfrentados pelas mulheres em diversos tempos e lugares. Nas palavras-chaves “mulheres negras, literaturas africanas, nacionalismo, feminismos”, escolhidas por Catarina Caldeira Martins, temos a senha de uma proposta que, privilegiando os contextos africanos, associa ainda os problemas ligados ao nacionalismo como um dado a merecer atenção no complexo conjunto de elementos que devemos considerar quando observamos o repertório literário africano e a constituição do seu cânone. 20 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X Apresentação Rita Chaves, Nazir Ahmed Can, Pedro Serra, Rebeca Hernández e Marlon Augusto Barbosa Com o foco na dinâmica das relações configuradas sob a égide do patriarcado, a instauração de novas bases para a leitura de obras escritas por mulheres é urgente na perspectiva da estudiosa, para quem “o cruzamento com a nação e os significados mobilizados pelos contextos nacionais são úteis para compreender singularidades e deslocamentos, com implicações nas interrelações entre mulheres que partilham uma identidade racial, porém a preenchem discursivamente de modos distintos”. O sistema patriarcal e a luta das mulheres contra os seus vários códigos também está na pauta do artigo “Eu, mulher: a visão de Paulina Chiziane de um mundo para mulheres”, de Marie Claire De Mattia, que também situa sua análise na mais conhecida ficcionista moçambicana. Em sua reflexão, a estudiosa articula notas de Eu, Mulher… Por uma Nova Visão do Mundo, conferência escrita em 1992 e publicada em 1994, pela UNESCO, antecipando a Conferência Internacional sobre a Mulher, Paz e Desenvolvimento (Pequim, 1995), com dois romances bastante visitados pela crítica: O alegre canto da perdiz, já referido por Catarina Martins, e Niketche. No diálogo entre a visão política de Paulina Chiziane e a sua escrita, de Marie Claire De Mattia, procura trazer à superfície os modos como se operacionaliza a proposta “pela reformulação em chave filo-feminina de algumas mitologias banta nas obras”. Sem deixar de lado, no exame da conjuntura em que se movem as mulheres moçambicanas, a religião e o condicionamento dado pelo contexto tradicional, o discurso de Paulina Chiziane realça a contribuição da escrita na luta individual e na possibilidade de uma resistência coletiva, questões que o artigo busca ratificar. Ainda pela matriz da exclusão, Rick Afonso-Rocha e Iago Moura Melo nos conduzem a Angola e a sua literatura na contemporaneidade com o artigo “Mutilações necrobiopolíticas em Os transparentes, de Ondjaki”. A opção pelos estudos culturais liga-se, segundo os próprios autores, à decisão de “tratar do político no simbólico, sem perder de vista o histórico e a resistência inscrita na relação saber/poder/colonialidades”. No romance de Ondjaki, eleito como corpus literário, o fenômeno da espoliação é radicalizado e materializa-se no corpo de Odonato, figurando um processo sintetizado na pergunta que o artigo coloca: “qual o objeto da mutilação?” E apressa-se a responder: “Podemos dizer: a memória, a história e os corpos daqueles que se pretendem dominar. A mutilação, sob esses sentidos, constitui o efeito de fazer minguar a carne, que a torna diminuta, que tenta desinvestir a resistência que lhe é contemporânea”. Com base em conceitos buscados na metodologia interdisciplinar, a análise vai incorporar contribuições de Agamben, Bourdieu, Foucault e Said, entre outros, para compreender a multiplicidade de problemas que nos dizem dessa Luanda contemporânea onde as lutas, simbólicas ou práticas, nos revelam que “invisível é aquele que não pode ser visto, que desaparece. Já o transparente, embora perca densidade e materialidade, não chega a ficar invisível. Ser transparente é visibilizar a invisibilidade.” O volume se encerra com uma resenha de Francisco Topa, que nos apresenta uma edição da Nossomos, uma original editora situada em Vila Nova de Cerveira que se dedica exclusivamente à poesia. Pelo verbo do crítico, entramos em contato com o universo poético de Enquanto 21 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X essa chuva não parar de chover e conhecemos alguns aspectos de João-Maria Vilanova, cuja existência foi cercada de mistério durante muitos anos. A adoção de um pseudônimo com que assinou livros motivou acalorados debates acerca da verdadeira identidade do autor de obras como Vinte Canções para Ximinha, 1971; Caderno dum Guerrilheiro, 1974; Mar de minha terra & outros poemas, 2004; 7 flagrantes da verde savana, 2013; 7 poemas da acácia rubra florindo, 2013; e Os contos de Ukamba Kimba, também de 2013. Sem se deter nos meandros da enigmática biografia, em sua resenha, Topa privilegia a escrita poética e argumenta que estamos perante um texto “inequivocamente angolano: porque se integra numa tradição angolana, com a qual dialoga de muitas maneiras; porque usa uma linguagem angolana; porque trabalha temas e motivos que, sendo muitas vezes de alcance mais vasto, são de raiz angolana. E isto é válido tanto para Enquanto essa chuva não parar de chover quanto para os cinco livros de poesia publicados anteriormente”. Referências BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. 6 ed. São Paulo. Brasiliense, 1994. CARVALHO, Ruy Duarte de. A câmara, a escrita e a coisa dita... fitas, textos e palestras. Lisboa: Cotovia, 2008. COUTO, Mia. E se Obama fosse africano e outras interinvenções. 2 ed. Lisboa: Editorial Caminho, 2009. GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006. MBEMBE, Achille. Sair da grande noite. Ensaio sobre a África descolonizada. Luanda: Edi- ções Mulemba; Mangualde: Edições Pedago, 2014 PRATT, Mary-Louise. Os olhos do império. Relatos de viagem e transculturação. Bauru: EDUSC, 1999. SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Edusp, 2007 [1982]. TRAVERSO, Enzo. Melancolia de esquerda: marxismo, história e filosofia. Belo Horizonte/ Veneza: Editora Âyiné, 2018. 22 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 12 | Número 22 | p. 8-22 | jan.-jun. 2020. ISSN:2176-381X