OPEN ACCESS LETRÔNICA Revista Digital do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS Letrônica, Porto Alegre, v. 13, n. 3, p. 1-14, jul.-set. 2020 e-ISSN: 1984-4301 http://dx.doi.org/10.15448/1984-4301.2020.3.36823 A Petrópolis imperial sob o sombreiro da espanhola Carmen Oliver The Imperial Petrópolis by the Spanish Carmen Oliver Katia Aily F. de Resumo: O presente artigo visa analisar o relato escrito por Carmen Oliver de Camargo1 Gelabert, intitulado Viaje poético a Petrópolis, para tanto, basear-nos-emos no pa- orcid.org/0000-0001-6463-8976 radigma da descrição na tradução etnográfica, isto é, a realidade social apreendida kaily@cchla.ufrn.br a partir do “ver”, transformada em linguagem; do esforço de transformar o olhar do viajante em escrita, segundo nos explica Laplantine (1996) e de sua relação com a tradução interlingual (FERREIRA, 2017; JAKOBSON, 2011), pois a realidade que está acontecendo em uma língua estrangeira está sendo transmitida ao leitor na Lucía Molina2 linguagem da narrativa de viagem, no entanto, há sempre a presença de termos orcid.org/0000-0003-4180-6644 lucia.Molina@uab.cat exóticos que podem aparecer no relato de maneira discreta ou destacada. So- mado ao exposto, acrescentaremos as categorias de classificação e de tradução de culturemas elaboradas por Molina (2006, 2011), que nos levaram a perceber a domesticação do relato de viagem escrito por Carmen Oliver. Palavras-chave: Tradução etnográfica. Literatura de viagem. Culturemas. Recebido em: 13 jan. 2020. Carmen Oliver de Gelabert. Aprovado em: 24 mar. 2020. Publicado em: 30 out. 2020. Abstract: The present article aims to analyze the narrative written by Carmen Oliver de Gelabert entitled Viaje poético a Petrópolis, based on the paradigm of description in ethnographic translation, that is, the social reality apprehended from the “seeing”, transformed into language; the effort to transform the traveler’s gaze into writing, as Laplantine (1996) explains to us. Its relation to interlingual translation (FERREIRA, 2017; JAKOBSON, 2011) as the reality that is happening in a foreign language is being transmitted to the reader in the language of travel writing, however, there is always the presence of exotic terms that may appear in the story discreetly or prominently. In addition, we will add the classification and translation categories of culturemas elaborated by Molina (2006, 2011), which led us to understand the domestication of the travel narrative written by Carmen Oliver. Keywords: Ethnographic translation. Travel writing. Culturemas. Carmen Oliver de Gelabert. Considerações iniciais Os relatos de viagem têm sido cada vez mais estudados no campo das Letras, apesar de historiadores da literatura como Alfredo Bosi e Antônio Candido os considerarem como simples fonte de informação. Míriam Moreira Leite (1993, p. 21-22) diz que os livros de viagem podem ser reduzidos àquilo que André Jolles (1972, p. 159-171) chama, entre as formas simples da expressão literária, de les mémorables, isto é, a nar- rativa daquilo que efetivamente aconteceu e se manteve na memória. Segundo Stella Franco (2018, p. 14-15), no meio acadêmico, os estu- dos da temática viagens e relatos poderiam ser divididos, sob risco de simplificação, em duas grandes vertentes interpretativas: uma vincu- Artigo está licenciado sob forma de uma licença lada à História Social, dedicada ao estudo das práticas e do cotidiano Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. 1 Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal, RN, Brasil. 2 Universitat Autónoma de Barcelona (UAB), Barcelona, Espanha. 2/14 Letrônica, Porto Alegre, v. 13, n. 3, p. 1-14, jul.-set. 2020 | e-36823 dos atores envolvidos nas viagens e daqueles infiltrem e criem redes científicas, construam e mantenham identidades aprendidas e pu- retratados nas narrativas. A outra mais voltada à bliquem suas descobertas em um formato crítica literária, à dimensão discursiva presente e gênero que admitiu observação pessoal e empírica, operando dentro do habitus daquilo nos textos dos viajantes. que Alice Walters denominou ‘ciência educada’ Gênero flexível por excelência, a literatura (BYRNE, 2019, p. 161-162, tradução nossa). 4 de viagem parte do princípio da reescrita, da reformulação de uma experiência individual, a Apesar dessa importância, sabe-se que muitas do viajante, que, a partir do momento que vem à vezes essas mulheres/cientistas viajantes camu- lume, ultrapassa o domínio privado integrando o flavam-se atrás de seus maridos ou faziam uso público: “[...] uma das primeiras tarefas do autor de de pseudônimos para resguardarem-se. Tanto relatos de viagens é demonstrar quanta tradução Mírian Moreira Leite (1993, p. 23) quanto Francisco precisa ser feita, apenas para justificar seu papel Lafarga (2012, p. 180) afirmam que nem sempre narrativo como intérprete das cenas que teste- os livros de autoras-mulheres apresentavam munham” (CRONIN, 2000, p. 36, tradução nossa). 3 material mais rico e diferente daquele dos au- Isto posto, o presente artigo visa analisar o tores-homens, muito mais numerosos. relato Viaje poético a Petrópolis, escrito pela O relato que ora analisamos – Viaje poético a maiorquina Carmen Oliver de Gelabert, em 1872, Petrópolis – é bastante intrigante, a começar pela sob a ótica da tradução etnográfica (LAPLANTINE, precariedade de informações, do texto latente, 1995; 1996; FERREIRA, 2017), que acreditamos, nas palavras de Leite (1993, p. 21), e pelo seu possibilitar-nos-á esboçar uma representação do caráter poético, adjetivo que aparece já no título.5 Brasil, mais especificamente do Rio de Janeiro e De acordo com o Diccionario de la lengua cas- de Petrópolis, por meio da análise dos culturemas tellana elaborado pela Real Academia Espanhola (MOLINA, 2001) encontrados na obra. (RAE), em sua edição de 1884, lê-se: “Poético: pertencente ou relativo à poesia. Próprio ou ca- 1 Carmen Oliver de Gelabert autora-viajante racterístico da poesia; adequado ou conveniente para ela. Linguagem, estilo, poético. Arte poética” Angela Byrne (2019), ao escrever sobre a im- (RAE, 1884, p. 845, tradução nossa).6 O que nos portância das mulheres enquanto leitoras e es- leva ao verbete Poesia: critoras de relatos de viagem, afirma: Poesia: expressão artística da beleza através O desenvolvimento da escrita de viagens para da palavra sujeita à medida e cadência, da qual [...] e por mulheres é bem conhecido. Em re- o verso é. [...] Gênero de produções da com- sumo, as mulheres eram viajantes prolíficas e preensão humana, cujo imediato é expressar a escritoras de relatos de viagens, formando um beleza através da linguagem, e cada uma das grupo importante de produção e consumo do diferentes espécies ou variedades deste gênero; popular gênero literário e científico da narrativa Poesia lírica, épica, dramática, bucólica, reli- de viagens. As mulheres fizeram importantes giosa e profana. Força de invenção, explosão de contribuições ao conhecimento geográfico, fogo, originalidade e ousadia surpreendentes, publicando diários de viagem, geografias e sensibilidade requintada, elevação ou graça, cartilhas geográficas em uma corrente inter- riqueza ou novidade de expressão, charme in- nacional e intergeracional de intercâmbio de definível, ou seja, um conjunto de qualidades conhecimentos. [...] As viagens permitem que que devem caracterizar o pano de fundo desse as mulheres realizem trabalho de campo, se gênero de produção da compreensão humana, 3 Do original: […] one of the primary tasks of the travel writers is to demonstrate how much translation has to be done, if only to justify their narrative role as interpreter of the scenes they witness. 4 Do original: The development of travel writing [...] for and by women is well known. In brief, women were prolific travelers and travel wri- ters, forming an important constituency of production and consumption in the very popular literary and scientific genre of travel writing. Women made important contributions to geographical knowledge by publishing travelogues, geographies and geographical primers in an international and intergenerational current of knowledge exchange. [...] Travel enable women to undertake fieldwork, to infiltrate and create scientific networks, to construct and maintain learned identities, and to publish their findings in a format and genre that admitted both personal and empirical observation, operating within the habitus of what Alice Walters has termed “polite science”. 5 O termo poético aparece doze vezes ao longo do relato (Cf. OLIVER, p. 9, 11, 32, 37, 40, 49, 81, 84, 106, 129, 135, 140) e o termo poesia conta com vinte ocorrências. 6 Do original: Poético: perteneciente o relativo á la poesía. Propio o característico de la poesía; apto o conveniente para ella. Lenguaje, estilo, poético. Arte poética. Katia Aily F. de Camargo • Lucía Molina A Petrópolis imperial sob o sombreiro da espanhola Carmen Oliver 3/14 independentemente da forma externa, isto é, da para que nada a surpreenda. Acredito também estrutura material da linguagem, da qual resulta que nossa parcialidade, mais do que suficiente o versículo […]. Certos encantos indefinidos que, para você, minha boa filha, me perdoe, sendo nas pessoas, nas obras de arte e até nas coisas esse o pobre conforto que me resta; mas tenho da natureza física, lisonjeiam e suspendem o a consciência limpa, porque não te enganei... clima, infundindo-o com deleite suave e puro (OLIVER, 1872, p. 190, tradução nossa).9 (RAE, 1884, p. 844, tradução nossa, grifo nosso).7 A advertência inicial a qual faz referência ao As definições expressas nos verbetes ecoam os seu estilo tosco, a sua falta de ciência, resultado, usos feitos deles por Carmen, como se pode perce- segundo a autora, de ser uma mulher do povo:10 ber nos trechos que seguem: “[...] Ah os túneis, como são poéticos!” (OLIVER, 1872, p. 11, tradução nossa); Pois bem, minha filha, confiante em sua pru- dência, que será suficiente para dissimular meu estilo bastante vulgar, devido à pobreza […] Jesus! Quantos olhos devem ter se fixado da ciência, e para poupar-me da infelicidade de nesse puro verdor das árvores e das palmeiras saber que ler essas páginas seja-lhe irritante deixando um poético pensamento, sentido ape- por causa de minha linguagem muito simples nas pelo coração. Petropolitanos Os petropoli- […] Que agradável entretenimento seria ler essa tanos em geral são poeticamente conscientes descrição, mas com frases escolhidas por um porque são vistos em muitos troncos lisos de talento esclarecido que possui conhecimento árvores (OLIVER, 1872, p. 49, tradução nossa); das ciências apropriadas, por exemplo, da cosmogonia, e, sem hesitar, eu diria que Deus, “[…] depois do poético crepúsculo” (OLIVER, sábio Criador, reserva a essência poética para generosamente dar ao seu Brasil privilegiado! 1872, p. 84, tradução nossa); e “[…] [bosque] Ele (OLIVER, 1872, p. 6-7, tradução nossa).11 que é tão poético e lindo!” (OLIVER, 1872, p. 129, tradução nossa).8 Outras questões que tornam o relato intrigan- A autora-viajante é praticamente desconheci- te, principalmente quando comparado àqueles da, não se sabe em que ano aportou, nem quanto escritos por viajantes franceses do mesmo perí- tempo permaneceu no Brasil. Além de apresentar odo, como os de Adèle Toussaint-Samson e de incongruências e distanciamento de certa praxe Charles Expilly, serão abordadas mais adiante, do gênero literatura de viagem que, apesar de ao analisarmos a tradução etnográfica. ser bastante maleável, pregava, no século XIX, Carmen Oliver de Gelabert, maiorquina, católica pela veracidade e imparcialidade daquilo que fervorosa, mas pouco instruída, segundo afirma seria lido. Carmen Oliver, ao contrário, afirma a no Prólogo de Viaje poético a Petrópolis, foi criada parcialidade do seu ponto de vista, como pode- pela mãe, que não imaginava que um dia sua filha mos ver na citação abaixo deixaria a ilha. Sabemos que deixou a sua terra natal pelo porto da “plaza da Peña”, a bordo do Acredito que você já tenha lido este meu tra- balho e esteja convencida de sua sinceridade, vapor Mauá, em um mês de abril de fins da dé- a qual já emanava do meu aviso dado no início, cada de 1860, para encontrar seu filho Pepito que 7 Do original: Poesía: expresión artística de la belleza por medio de la palabra sujeta á la medida y cadencia, de que resulta el verso. [...] Género de producciones del entendimiento humano, cuyo inmediato es expresar el bello por medio del lenguaje, y cada una de las distintas especies o variedades de este género; POESIA lírica, épica, dramática, bucólica, religiosa, profana. Fuerza de invención, fogoso arrebato, sorprendente originalidad y osadía, exquisita sensibilidad, elevación o gracia, riqueza o novedad de expresión, encanto indefinible, o sea conjunto de cualidades que deben caracterizar el fondo de este género de producción del entendimiento humano, independientemente de la forma externa, o sea de la estructura material del lenguaje, de que resulta el verso […]. Cierto indefinibles encantos que, en personas, en obras de arte y aún en cosas de la naturaleza física, halaga y suspende el ánimo, infundiéndole suave y puro deleite. 8 Do original: [...] a los tunels; ¡oh, cuán poéticos todo aquello!/ […] ¡Jesús! Cuantos ojos se habrán fijado en tal puro verdor dejando un poético pensamiento de estos que solo siente el corazón y con todos los árboles y palmeras de estos puntos. Petropolitanos en general están enterados poéticamente porque se ven en muchos lisos troncos de árboles./ […] después del poético crepúsculo… ¡él que es tan poético y tan hermoso! 9 Do original: Como supongo, habrás leído esta mi obrita, y convencida de la sinceridad, emanada ya desde mi advertencia del princi- pio, de manera que no habrás extrañado nada; creo también que nuestra parcialidad, mas que suficiente para tú, mi buena hija, perdo- narme, siendo eso el pobre consuelo que me queda; mas tengo la conciencia tranquila porque no te engañé. 10 As reflexões sobre a condição feminina são bastante fortes na obra, mas não é objeto deste artigo. 11 Do original: Ahora bien, hija mía; confiada en tu prudencia, que será suficiente para disimular mi estilo, que es bastante vulgar, por la pobreza de ciencia, jamás puedo ser tan desgraciada que la lectura de estas páginas te sea fastidiosa en razón de su demasiado sencillo lenguaje […] Oh, que lindo entretenimiento seria leer esta descripción, pero con frases escogidas por un talento ilustrado que poseyese las ciencias propias, por ejemplo, la cosmogonía, y sin dudarlo diría que Dios, sabio Criador, reserva la esencia poética para regalarla generosamente a su privilegiado Brazil! 4/14 Letrônica, Porto Alegre, v. 13, n. 3, p. 1-14, jul.-set. 2020 | e-36823 estudava como interno no Colégio Kopke: “Bem, A primeira visita que fiz quando deixei o hotel, durante minha estadia em Petrópolis, foi, é como já disse, embarcamos no porto da Plaza claro, ao colégio interno de Pepito. Ele era um de la Peña e, com a mais bela bonança, o vapor garoto de 10 anos quando entrou, unindo-se aos 3 que já moravam naquele lugar que ofe- Mauá, que transportava mais de 100 passageiros, rece uma vista surpreendente (OLIVER, 1872, corria pelas águas salgadas da bela baía do Rio p. 40, tradução nossa).13 de Janeiro” (OLIVER, 1872, p. 16, tradução nossa).12 Ou quando diz que seu filho querido gostava Figura 1 – Carmen Oliver de Gelabert tanto dos pais que queria vê-los a cada três me- ses (OLIVER, 1872, p. 130); que passeava com as amigas pelo Jardim Botânico (OLIVER, 1872, p. 9). Outro indício é a menção ao retorno triunfante do conde d’Eu à corte em abril de 1870 (OLIVER, 1972, p. 21, 37, 104), após ter vencido as batalhas de Pirebebuy e Campo Grande. O conde d’Eu, consor- te da princesa Izabel, filha de D. Pedro II, participou da Guerra do Paraguai, assumindo o comando em chefe das forças nacionais, em 1869, substituindo o Duque de Caxias (WANDERLEY, 2018). A justificativa da viagem é original, pois o usual, o que frequentemente pode ser encontrado na lite- ratura, é o costume de membros da elite brasileira irem estudar no Velho Mundo e não o contrário. É verdade que achamos menção ao Colégio, inau- gurado em 1o de janeiro de 1850, conhecido por ser a primeira instituição privada da região e por seguir uma estrutura curricular europeia, em outras obras como: Brasil Pitoresco (1861), de Ribeyrolles: Fonte: Viaje poético a Petrópolis, p. 2, 1872 (domínio público). Há alguns colégios públicos e particulares, entre estes o de Mme. Cramer, de meninas, o do senhor Köpke e o de Santa Teresa para o O arquivo Nacional do Rio de Janeiro, a Hos- sexo masculino. O colégio Köpke é o modelo pedaria dos Imigrantes (Santos), todas bases de de direção, de inteligência pedagógica e de disciplina, e a sua prosperidade é justiça. Mas dados online, guardam registro dos estrangei- a instrução que aí se dá é mais elementar ros que entravam no Brasil. No entanto, nada que a do de Santa Teresa e não se eleva em nenhum deles aos estudos superiores que encontramos sobre a família Oliver, composta dão diploma. Ora, se nos limites do seu pro- por Carmen, Joaquin e dois filhos, Barbarita e grama e de sua especialidade, a direção do Sr. Köpke é exemplar, não menos verdade que Sebastian (OLIVER, 1872, p. 13). há naquele estabelecimento grande vácuo e Certas passagens de seu relato, no entanto, lacuna a preencher (RIBEYROLLES, 1861 apud PANIZZOLO, 2006, p. 73). levam-nos a crer que sua permanência em terras brasileiras não fora tão efêmera, como, por exem- A descrição da viajante maiorquina é bem plo, ao deixar a hospedaria em Petrópolis para mais detalhada (1872, p. 40) e foi retomada pela visitar o seu filho, comenta que este frequenta Prefeitura Municipal de Petrópolis, em 1939 (PA- o colégio Kopke há três anos: NIZZOLO, 2006, p. 65) 12 Do original: Pues como llevo dicho, nos embarcamos en el puerto de la plaza de la Peña, y con la mas bonita bonanza, corrió por las aguas saladas de la hermosa bahía de Rio-Janeiro el vapor Mauá, portador de mas de 100 pasageros. 13 Do original: La primera visita que hice cuando salí del hotel, à mi permanencia en Petropolis, fué, por supuesto, al colegio donde está de pensionista Pepito, muchacho de 10 años cuando entró, habiendo, habiendo 3 que vive en ese lugar que ofrece una sorprendente vista. Katia Aily F. de Camargo • Lucía Molina A Petrópolis imperial sob o sombreiro da espanhola Carmen Oliver 5/14 A casa é grande como um convento, ainda jardim, como me disse Pepito, que possuía que a forma seja de palácio, e, quanto ao seu um canário, dois tico-ticos e um cardeal, de interior, vale muito mais, porque há sábios modo que muito me agradou saber dessa lícita professores que instruem os alunos de várias distração de cuidar das árvores e das flores, ciências, e a limpeza e o asseio são impossíveis que as crianças escolhem para que sejam seus de serem superados. favoritos, ao passo que exercitam o movimento ativo. Tudo isso em clima saudável […] (OLIVER, Para recreio dos alunos, o diretor permite o 1872, p. 40 apud PANIZZOLO, 2006, p. 65).14 plantio de flores, como manter viveiros no Figura 2 – Colégio Köpke – Litografia de Heaton e Rensburg Fonte: PANIZZOLO, 2006; MELO, 2018. contar a razão dessa interessante peregrinação: Bem, voltemos ao relato que nos interessa. ela aconteceu com a intenção de visitar meu Dedicada à filha Barbarita, que não pode acom- filho Pepito, que está lá entre montanhas, rios e florestas, naquele lugar bonito, paradisíaco, panhar a família na visita ao irmão, a obra fora estando algo longe desta corte […] (OLIVER, escrita em castelhano e publicada, no Rio de 1872, p. 7, tradução nossa).15 Janeiro, pela Imprensa Apóstolo, a mesma que publicava a folha católica O Apóstolo. Em suas 192 páginas lemos uma breve des- crição poética de sua travessia atlântica, de sua [...] tenho o prazer de escrever-lhe esta pequena chegada à baía do Rio de Janeiro, seguida, ime- obra intitulada Viaje Poético a Petrópolis, cidade moderna do Brasil, e como sua ausência te diatamente, da viagem de trem e charrete às privou de fazer essa viagem comigo, vou te 14 Do original: La residencia esta que ahora nos ocupa, pertenece al Sr. Kopke; es grande como un convento, aunque la forma es de pa- lacio; y en cuanto al interior, vale mucho mas, porque hay sabios profesores que instruyen a los alumnos de muchas ciencias; y en cuanto a limpieza y aseo, eso es imposible verla mas luciente. Para recreo de los alumnos el director les permite plantar para tener flores, como también tienen sus pajareras en el jardín, como me dijo mi Pepito, que él tenia un canario coloro-virado, dos ticuticos, un candeal y una oropéndola; de suerte que me alegré de su lícita distracción que también es cuidar los árboles y flores que los muchachos escojen para que sean sus favoritos, mientras tanto ejercitan el activo movimiento sin perder tan bonito entretenimiento; todo eso es bueno, y mas, porque se goza de tan saludable clima; de suerte que la robustez emanada de la perfecta salud que disfruta Pepito, lo atestigua; así es que merced á esto dicho, este mi hijo hace valentías de todas clases […]. 15 Do original: […] tengo el placer de escribirte esta obrita titulada Viaje Poético á Petropolis, ciudad moderna del Brazil, y puesto que tu au- sencia te ha privado de hacer este viaje conmigo, te enteraré con qué objeto yo hice esta interesante romería: fue con la intención de visitar á mi hijo Pepito, que allí está entre montañas, ríos y bosques, en aquel precioso lugar, tan propio para paraíso, siendo algo lejos de esta corte. 6/14 Letrônica, Porto Alegre, v. 13, n. 3, p. 1-14, jul.-set. 2020 | e-36823 montanhas de Petrópolis. Alguns capítulos dis- estrangeiro através do não traduzido” (CRONIN, tanciam-se completamente do relato de viagem, 2000, p. 41, tradução nossa).16 interrompendo o fio da leitura ao narrar a morte do Uma referência da confluência entre a et- pai, que faleceu antes de seu nascimento, a vida nografia e a tradução é, sem dúvida, o artigo de um marinheiro, entre outras historietas. Alguns pioneiro de Nida (1945, p. 194-208) “Linguistics jornais do Rio de Janeiro divulgam a publicação: and Ethnology in Translation Problems”. Como o jornal carioca Artes e Letras, em 1873 (Edição mostra o título de seu artigo, o tratutólogo bíblico 1), o Jornal do Commercio, em 1874 (Edição 314) define elementos culturais como um problema e A Nação: jornal político, comercial e litterario, de Tradução. Diversos autores compartilham em 1873 (Edição 20), no qual lê-se: dessa concepção dos elementos culturais como gerador de conflito entre o texto-cultura origem Passeio poético à Petrópolis – sob este título acaba de ser publicado um primoroso e nítido e o texto-cultura meta. Dentre esses, Franco volume, escripto com rara elegância e muito (1996), que os denomina Culture-specific Items sentimento pela Exma. Sra. D. Carmen Oliver de Gelabert. (CSI); Nedergaard-Larsen (1993) que usa Cultu- re-bound terms ou Nord (1997), que emprega o Escrevendo a uma sua filha, de quem está distante, a magnífica produção de que nos termo culturema, no qual baseou-se Molina (2011) ocupamos está cheia de lances de ternura para desenvolver a concepção que utilizamos maternal, que não podiam caber senão em um coração de mãe. neste artigo. A narrativa é curiosa, havendo muita verdade Segundo essa autora, culturema pode ser um na parte descritiva, e muito honra ao Brasil o elemento verbal (palavras), para-verbal (gestos) bom conceito com que a ilustre estrangeira nos julga quando fala em nossos costumes e ou não verbal (icônico) que possui “uma carga na boa sociedade de Petrópolis. cultural específica em uma cultura e que ao entrar Tal obra, com quanto escrita em espanhol, nos em contato com outra cultura através da tradução interessa muito de perto, pois que diz respeito exclusivamente a nosso país. pode provocar um problema de índole cultural Muito penhorados agradecemos o volume com entre os textos fonte e meta” (MOLINA, 2011, p. que nos mimosearam. (A NAÇÃO, 1873, p. 2) 80, tradução nossa).17 A presença dos culture- mas pode demonstrar certas características da sociedade, da cultura e do país, e é um aspecto 2 A tradução etnográfica bastante usual nas narrativas de viagem sobre o Para analisarmos Viaje poético a Petrópolis Brasil de meados do século XIX (CAMARGO, 2017). basear-nos-emos no paradigma da descrição na No presente estudo empregamos duas ferra- tradução etnográfica, isto é, na realidade social mentas de análise: a) os âmbitos culturais, que apreendida a partir do “ver”, transformada em utilizaremos para ver que parcelas da cultura linguagem; do esforço de transformar o olhar brasileira foram explicadas (traduzidas) pela via- do viajante em escrita, segundo nos explica jante, isto é, aquelas em que o salto cultural (o Laplantine (1996) e de sua relação com a tradução conflito) é mais patente (MOLINA, 2006, p. 86); b) interlingual (FERREIRA, 2017; JAKOBSON, 2011), as técnicas de tradução utilizadas para denominar pois a realidade que está acontecendo em uma e classificar a maneira de traduzir os elementos língua estrangeira está sendo transmitida ao leitor culturais brasileiros para o entorno linguístico na linguagem da narrativa de viagem, no entanto, e cultural espanhol (MOLINA, 2006, p. 101-104), há sempre a presença de termos exóticos que conforme Quadros 1 e 2. podem aparecer no relato de maneira discreta ou destacada. “O leitor é traduzido para um clima 16 Do original: The reader is translated into a foreign climate through the untranslated. 17 Do original: una carga cultural específica en una cultura y que al entrar en contacto con otra cultura a través de la traducción puede provocar un problema de índole cultural entre los textos origen y meta. Katia Aily F. de Camargo • Lucía Molina A Petrópolis imperial sob o sombreiro da espanhola Carmen Oliver 7/14 Quadro 1 – Classificação de âmbitos culturais Flora, fauna, fenômenos atmosféricos, climas, ventos, paisagens (naturais e cria- Meio natural das), topônimos Personagens (reais ou fictícios), feitos históricos, conhecimento religioso, festivi- dades, crenças populares, folclore, obras e monumentos emblemáticos, lugares Patrimônio Cultural conhecidos, nomes próprios, utensílios, objetos, instrumentos musicais, técnicas empregadas no cultivo da terra, a pesca, questões relacionadas com o urbanismo, estratégias militares, meios de transporte etc. a) Convenções e hábitos sociais: o tratamento e a cortesia, o modo de comer, de vestir, de falar; costumes, valores morais, gestos de cumprimento, a distância física Cultura social mantida pelos interlocutores, etc. b) Organização social: sistemas políticos, legais, educativos, organizações, ofícios e profissões, moedas, calendários, eras, medidas, etc. Refrões, frases feitas, metáforas gerais, associações simbólicas, interjeições, blas- Cultura linguística fêmias, insultos, nomes próprios com sentido extra, etc. Fonte: MOLINA, 2006. Quadro 2 – Classificação de técnicas de tradução Substituir um elemento cultural por outro próprio da cultura receptora. Base- Adaptação ball (I) → Fútbol (E) Acrescentar elementos linguísticos. No way (I) → De ninguna de las maneras Ampliação linguística (E). Opõe-se à compreensão linguística. Introduzir especificações não formuladas no texto fonte ‫( ﺭﻣﺿﺎﻥ‬ramadán) (A) → Ampliação Ramadán, el mes de ayuno de los musulmanes (E). Opõe-se à redução. Traduzir literalmente uma palavra ou sintagma estrangeiro. No problem (I) → Calque No hay problema (E). Introduzir em outro lugar do texto meta um elemento de informação ou efeito Compensação estilístico que não pode ser inserido no mesmo lugar do texto de origem I was seeking thee, Flathead (I) → En vérité, c’est bien toi que je cherche, O Tête-Plate (F). Sintetizar elementos linguísticos. Yes, so what? (I) → ¿Y? (E). Opõe-se à amplia- Compressão linguística ção linguística. Estabelecer uma equivalência efêmera, totalmente imprevisível fora de con- Criação discursiva texto. Rumble Fish (I)→ La ley de la calle (E). Substituir um termo ou expressão pela descrição de sua forma e/ou função. Descrição Panettone (I) → El bizcocho tradicional que se toma en Noche Vieja en Italia (E). Utilizar um termo ou expressão reconhecida (por dicionário, pelo uso linguísti- Equivalente cunhado co) como equivalente na língua de chegada. They are as like as two peas (I) → Se parecen como dos gotas de agua (E). 8/14 Letrônica, Porto Alegre, v. 13, n. 3, p. 1-14, jul.-set. 2020 | e-36823 Utilizar um termo mais genérico ou neutro. A pint, please (I) →Una cerveza, por Generalização favor (E). Opõe-se à especificação. Alterar o ponto de vista, o enfoque ou a categoria de pensamento em relação à Modulação formulação do texto fonte. ‫( ﺴﺘﺼﻴﺮ ﺃﺒﺎ‬vas a ser padre) (A) → Vas a tener un hijo (E). Utilizar um termo mais específico ou concreto. Una cerveza, por favor (E) → A Especificação pint, please (I). Se opone a la generalización. Inserir uma palavra ou expressão de outra língua (tal e qual). Puro: Lobby (I) → Empréstimo Lobby (E) Naturalizado: Meeting (I) → Mitin (E) Apagar no texto meta algum elemento de informação presente no texto fonte, Redução seja por completo, seja uma parte de sua carga informativa. Ramadán, el mes de ayuno para los musulmanes (E) → ‫( ناضمر رهش‬A). Se opone a la amplificación. Substituição (linguísti- Trocar elementos linguísticos por para linguísticos (entonação, gestos) ou vice- ca, para linguística) -versa. Llevarse la mano al corazón (A)→ Gracias (E). Traduzir palavra por palavra um sintagma ou expressão, mas não uma palavra Tradução literal isolada. They are as like as two peas (I) → Se parecen como dos guisantes. (E). Transposição Alterar a categoria gramatical. He will soon be back (I) → No tardará en venir (E). Variação Introdução ou trocas de marcas regionais, de dialeto, mudança de tom etc. Fonte: MOLINA, 2006. 2.1 A tradução etnográfica em Viaje poético quando as instituições regularem as práticas à Petrópolis tradutórias de forma tão restritiva a ponto de A análise da pequena obra de Carmen deixa apagar e assim anular as diferenças linguísticas e transparecer, diferentemente do anúncio de A Nação, culturais dos estrangeiros” (VENUTI, 2002, p. 154). que a autora viajante não se abriu para o estrangeiro, Sinais da domesticação do que foi visto no não vivenciou a cultura brasileira, traduzindo sua Brasil podem ser percebidos na maneira gene- peregrinação elitista a sua filha espanhola, Barbarita. ralizante que descreve a natureza paradisíaca, Lawrence Venuti, em Escândalos da Tradução as águas cristalinas. O caminho até Petrópolis é (2002), afirma que as traduções, segundo a Igreja várias vezes comparado a cenas bíblicas, como Cristã, podem alterar o funcionamento de qual- o trecho que segue que retoma Gênesis 21: quer instituição social, pois traduzir implica em Essas florestas onde germinam a riqueza mais assimilação de um texto estrangeiro. Vale lembrar desejável, recordam tantas coisas [...] que Carmen Oliver de Gelabert era cristã, que seu Por exemplo: Agar e seu filho Ismael, quando livro foi publicado por uma imprensa católica, que fugiram pelos desertos, antes de chegarem a Arábia Pétrea, deixando a casa de Abraão, a palavra Deus aparece setenta vezes ao longo servidos de provisões, infelizmente, tendo-as de seu texto, e, Jesus, 35. esgotado, ficaram mais aflitos e desesperados por não conseguirem encontrar água para saciar E Venuti continua: “Talvez as identidades do- a sede. Mortas suas esperanças, haviam desper- mésticas formadas pela tradução somente pos- diçado o tempo naquelas areias secas e áridas, nos desertos devastados, tristes que nem uma sam evitar os deslocamentos do texto estrangeiro pequena árvore para dar sombra aos infelizes Katia Aily F. de Camargo • Lucía Molina A Petrópolis imperial sob o sombreiro da espanhola Carmen Oliver 9/14 peregrinos tinha. Terras miseráveis, aquelas sem estrangeirizantes, isto é, aquelas passagens que, ápice nem grama! (tradução nossa).18 segundo Venuti (2002, p. 164), trazem “à consci- ência o fato de que a tradução é apenas uma No Quadro 3, buscamos, por meio de uma se- tradução, impressa com inteligibilidades e inte- leção, indicar as categorias de culturemas mais resses domésticos e que, portanto, não deve ser encontradas e as estratégias tradutórias utilizadas confundida com o texto [realidade] estrangeiro[a]”. pela viajante. Procuramos elencar os trechos mais Quadro 3 – Seleção e análise Termo/ Ámbito Técnica de Página Ocorrência Tradução cultural traducción 7, 19, Pues si los terrenes [sic] brazileros son tan pre- Brazileiros Cultura Empréstimo 33, 48… ciosos, mayormente estes petropolitanos, ¡oh!... Petropolitanos Social … Verbi-gracia: principia la sorprendente admiración desde el punto en que yo partí, que fue por mar, dando vuelta por Entre- Entre-Rios -Rios. Cierto, que es el mas bonito viaje, Estrada de D. 10, 125, Meio pasando, por supuesto, por la estrada de Pedro II Empréstimo 154 Natural D. Pedro II; ¡qué magnifico es todo cuanto Barra del yo allí vi! aquellas altas subidas por los Pirahy montes, después bajarlos, y para colmo de admiración pasar por la Barra del Pirahy … con muy humilde amor, saludé estas ricas riberas sorprendida por tantas pintorescas islas cerca unas de las otras, la de las Co- bras, la de Paquetá, las del Gobernador y la de D. Juan, de suerte que se ve allí una Sici- lia; la isla de los Amores es mas bonita que una perla, mas rica que el oro, útil como el Islas sol y mas poética que la luna… de las Cobras, Empréstimo la de Paquetá, La isla de los Amores, por ser un paraje pre- Meio +Ampliação 21-22 las del Gober- cioso, fue escogida por un ermunio antiguo, Natural (Ilha dos nador, de manera que este lugar en la actualidad Amores) la de D. Juan, es una especie de solariego delicioso; de los Amores altos árboles, tal vez de mas de 150 palmos de elevación y de bastante corpulencia, completa variación de plantas con flores extrañas que exhalan la mas suave fragan- cia, donde se refugian una multitud de aves acuáticas y revoletean hermosas y grandes mariposas de color suave 18 Do original: Estos bosques que brotan la más apetecida riqueza, recuerdan tantas cosas [...] Por ejemplo: Agar y su hijo Ismael, cuando ambos huían por los desiertos, antes de llegar a la Arabia Pétrea, habiendo salido de la casa de Abraham prevenidos de provisiones, y desgraciadamente, habiéndolas agotado, y para aumento de aflicción, madre con hijo deses- perados estaban porque no encontraban agua para aplacar su ardiente sed, muertas ya sus esperanzas y perdido el tiempo en aquellos áridos y secos arenales devastos desiertos triste páramo y pobre sobretodo que hasta carecía de un pequeño árbol para dar un poco de sombra á los desgraciados peregrinos. ¡Miserables tierras aquellas sin un ápice ni siquiera de yerba! (Cf. Genesis 21). 14. Na manhã seguinte, Abraão pegou alguns pães e uma vasilha de couro cheia d’água, entregou-os a Hagar e, tendo-os colocado nos ombros dela, despediu-a com o menino. Ela se pôs a caminho e ficou vagando pelo deserto de Berseba. 15. Quando acabou a água da vasilha, ela deixou o menino debaixo de um arbusto 16. e foi sentar-se perto dali, à distância de um tiro de flecha, porque pensou: “Não posso ver o menino morrer”. Sentada ali perto, co- meçou a chorar. Disponível em: https://www.bibliaon.com/genesis_21. Acesso em: 7 jan. 2020. 10/14 Letrônica, Porto Alegre, v. 13, n. 3, p. 1-14, jul.-set. 2020 | e-36823 Termo/ Ámbito Técnica de Página Ocorrência Tradução cultural traducción Meio 22 un delicado y voluptuoso aroma del ananaz Ananaz Empréstico Natural Jesús mío, ¡qué poderosos son! ¡qué ricas murallas guardan la entrada de Rio-Janei- ro! por ejemplo, principiando por el Pao de Pao de Assucar, Assucar, castillo sólido que durará hasta el Tijucanos, fin del mundo, su poderoso arquitecto fue Armasão, Meio 22 la mano de Dios. Pues vamos continuando Babilonia, Empréstimo Natural por los montes Tijucanos, Armasão, la Babi- Urca, lonia, que á tan bonito fastigio, conserva un Morro de la telégrafo, Urca, el Morro de la Viuda, y sobre Viuda todo muchos son los montes que rodean la playa de Rio-Janeiro. Pues si, desde aquel punto principié á Patri- 32, 119, descubrir chácaras, es decir, residencias de Empréstimo + Chácara mônio 128 personas opulentas que por recreo viven en Descrição Cultural aquellas delicias. Poco tiempo después oigo una voz dulce Cultura 36 Mamaizinha Empréstimo que me llamaba de mamaizinha. linguística … vi un bonito jardín llamado el Paseo público… Paseo público, Muchas son las calles, algunas te citaré: la S. Januario, de S. Januario, la de D. Francisca, la de D. D. Francisca, Auliana, calle Barbosa, la de Constitución, D. Auliana, Meio 48 Empréstimo la de Funileiros, la de Mineros, bah; muchas Barbosa, Natural mas calles de las que he mencionado Constitución, contienen la grande y bella ciudad de Funileiros, Petropolis… Mineros. — Mamá, es muy cedo todavía, respondió uno de los señoritos traviesos, y sin parar Empréstimo + de correr. Cultura 102 Cedo Equivalente —Si, hijo, dijo su madre, para nosotras es linguística cunhado muy temprano todavía, pero no para Vds. que son niños pequeños. Empréstimo + … para tomar baños de Cachoeira recibiendo Meio 113 Cachoeira Equivalente las aguas de una cristalina cascada… Natural cunhado Aura complaciente, sobre todo, queriendo satisfacer mi curiosidad, me invitó para visi- Meio 133 Morro Empréstimo tar una casa, la cual estaba en la cumbre de Natural un morro: para subir nos apeamos…. Katia Aily F. de Camargo • Lucía Molina A Petrópolis imperial sob o sombreiro da espanhola Carmen Oliver 11/14 Termo/ Ámbito Técnica de Página Ocorrência Tradução cultural traducción De toda clase de chucherías se vendían allí y todo á buen precio; los hombres compra- Cultura 133 Bengala Empréstimo ron una bengala y nosotras una pulsera, el Social niño un juguete. Aprovechando una pausa del viaje fuimos á un punto delicioso donde vi un palacete muy grande, teniendo dos pisos, simétrica- mente rodeado de balcones con hermosos y caprichosos hierros dorados, persianas Patri- verdes, y las puertas tedas del interior de 133 Palacete mônio Empréstimo ébano; la entrada principal de este moder- Cultural no edificio formaba un gran patío circular con una fila de columnas por el rededor, y en los extremos, magníficamente colocadas estaban ricas estatuas de mármol de Paros que representaban personajes históricos. Vi detrás de un matorral un animal cuad- rúpedo, pelo largo y color parda, bastante grande; pregunté cómo se llamaba un ani- Meio Empréstimo + 137-138 mal de aquella especie, y me respondieron: Bicho Preguiza, Natural Ampliação _Este tiene por nombre Preguiza; para subir á un árbol necesita un día entero. Negro criollo … vi un negro criollo, alto, hombros anchos y (negro nascido Buena figura, vestido de cazador… […] na América Cultura Equivalente 146-147 —Es verdad, mamá, dijo mi niño, este criollo em oposição Social cunhado es mejor cazador que yo. aquele trazido da África) —Bah, dijo una voz, es vocé un excelente Cultura 147 você Empréstimo cazador. linguística Empréstimo — Claro es que seria de su lanzón o patu- Cultura 183 Patupatu + Equivalente patu y flechas, … Social cunhado Considerações finais No que diz respeito às estratégias de tradu- Os dados expostos no Quadro 3 ganham em ção, observamos o uso majoritário da técnica de sentido ao serem lidos e interpretados juntamente Empréstimo, sinal claro do objetivo da autora de com o texto latente apresentado no subitem 2. marcar culturalmente o seu texto, de abrasileirá- Verificamos que das ocorrências elencadas, a -lo e de torná-lo exótico. Em todos os casos, com grande maioria (47%) pertence à categoria Meio exceção de um (“crioullo”), Carmen Oliver traduz a Natural, seguido da Cultura Social (24%), da Cultu- sua experiência brasileira com um termo em por- ra linguística (18%) e do Patrimônio cultural (11%). tuguês. No caso de “crioullo”, a técnica utilizada é a 12/14 Letrônica, Porto Alegre, v. 13, n. 3, p. 1-14, jul.-set. 2020 | e-36823 de Equivalente cunhado. Isso porque, na segunda etc. E uma vez que, ainda segundo Venuti (2002, metade do século XIX, o termo encontrava-se di- p. 166-167), a domesticação e a estrangerização cionarizado em espanhol, tendo a sua origem na não são dois elementos opostos excludentes, é língua portuguesa (crioulo – criar). Além disso, seu possível encontrá-los em um mesmo texto. significado também o insere no contexto cultural O que nos leva ao cerne da questão identitária. brasileiro, trazendo, assim, certa cor local à narrativa. De acordo Michael Cronin (2000, p. 92, tradução A autora serve-se de diversas estratégias para nossa), “A viagem, em sua forma mais progressiva, evitar vozes estrangeiras em sua obra, deixan- leva o projeto ético da tradução ao nível cultural do-a, desse modo, compreensível ao leitorado e espiritual, pois busca se envolver plenamente espanhol. Ocasionalmente, faz uso da dupla com outras culturas”.19 Alice Ferreira salienta o Empréstimo e Equivalente cunhado, inserindo processo de desterritorialização “um estranhar de no texto termos exóticos (como “cachoeira” ou nós-mesmos [que] permite a percepção que o que “patupatu”) e, ao mesmo tempo, assegurando- tínhamos como ‘natural’ na nossa sociedade, em -se da compreensão do destinatário. Em ou- particular a língua que falamos […] é, na realidade, tras situações, o Empréstimo é acompanhado um fato social como já dizia Saussure” (2017, p. 67). de uma Ampliação, responsável por explicar o Carmen Oliver não se abriu ao estrangeiro, não se termo, facilitando, com isso, sua compreensão. deixou modificar pelo seu contato e convivência, A viajante recorre a estas duas técnicas para não contemplou a beleza da natureza, mas uma traduzir o (bicho) “preguiza” e a “Isla de los Amo- variação de plantas com flores estranhas, uma res”. Também, e com a mesma intenção, usa o imensidade de aves aquáticas; admirava a mata Empréstimo juntamente com a Descrição para para não enxergar os negros escravos, moscas traduzir o vocábulo “chácaras”. que perturbam, que deixavam a vida pior; a cor lo- A utilização somente do Empréstimo ocorre cal se perde pela falta de detalhes, de curiosidade: em três situações distintas. Uma é quando se Sim, minha leitora, enquanto observava a flo- trata de nomes próprios, cuja similaridade orto- resta, mais poesia penetrava e tomava conta gráfica entre o português e o espanhol permite dos meus pensamentos; eu gostava, porque dissipava meus sentidos das coisas que me mantê-los. É o que ocorre com “Pao de Assuca”, afetavam, por exemplo, essas pequenas bo- “Tijucanos”, “Babilonia”, “Urca”, “Morro de la Viuda”. bagens, que são feias moscas que incomodam e pioram a vida! (OLIVER, 1872, p. 129, tradução Outra é quando a distância entre as duas línguas nossa, grifo nosso). 20 garante a compreensão, como é o caso de “vocé”, “mamizinha” ou “palacete”. O terceiro caso apa- […] Vi também uma quinta com tantos negros que cultivavam a terra. Nunca vi na minha vida rece quando o contexto garante a compreensão tantas moscas quanto havia negros naquele do termo, como por exemplo, em “bonito viaje, grande campo… (OLIVER, 1872, p. 153, tradução nossa, grifo nosso). 21 pasando, por supuesto, por la estrada de D. Pedro II” (OLIVER, 1872, p. 10) ou em “una casa, la cual Daí um anúncio como o que lemos em A Nação, estaba en la cumbre de un morro: para subir nos tão lisonjeiro à uma obra sem a cor e o calor local, apeamos...” (OLIVER, 1872, p. 113). mas que sustentava a ideia de o Brasil ser uma Dessa forma, percebemos que o grande in- terra abençoada por Deus, regido por um monarca teresse da autora-viajante se concentrava nas caridoso, tão diferente dos relatos de viajantes cenas da natureza (Meio Natural): na fauna, na franceses do mesmo período como o já men- flora, no frescor do clima, nas águas cristalinas 19 Do original: Travel, in its most progressive form, carries the ethical project of translation to the cultural and spiritual level as it seeks to engage fully with other cultures. 20 Do original: Sí, mi lectora, [...] mientras tanto que el bosque miraba, mas poesía penetraba hasta el punto de internar mis pensamien- tos ínterin gozaba, porque apartaba mis sentidos de las cosas que afectan, por ejemplo, estas tenues tonterías que son feas moscas que con natural incomodan y hacen peor la vida. 21 Do original:...Vi también una quinta con tantos negros que cultivaban que nunca vi en mi vida tantas moscas como negros había en aquel grande campo. Katia Aily F. de Camargo • Lucía Molina A Petrópolis imperial sob o sombreiro da espanhola Carmen Oliver 13/14 cionado Charles Expilly, acusado de ser inimigo LAPLANTINE, François. La description ethnographique. Paris: Armand Colin, 1996. do Brasil por ter trazido a público, por exemplo, a “escravidão branca” praticada no Império (CA- LEITE, Míriam Moreira Leite (org.). A condição feminina no Rio de Janeiro – século XIX. Hucitec: Edusp, 1993. MARGO, 2016). Ao final de sua jornada, Carmen continuou cristã, passeando pela corte, sob as MELO, Victor Andrade de. Preocupações com a educa- ção physica: o ensino de práticas corporais nas escolas palmeiras do Jardim Botânico, provavelmente fluminenses (1836-anos 1850). Educação e Pesquisa, [s. espantando as moscas com um lindo abanico! l.], v. 44, p. 1-28, 2018. https://doi.org/10.1590/s1678- 4634201844175905. MOLINA, Lucía M. El otoño del pingüino. Análisis des- Referências criptivo de la traducción de los culturemas. 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