Recebido em: 21 de outubro de 2021 | Aceito em: 21 de novembro de 2021 DOI: https://10.35520/mulemba.2021.v13n25a51422 ÁFRICAS, INSTITUIÇÃO LITERÁRIA, CIRCULAÇÃO DE IDEIAS. APRESENTAÇÃO AFRICAS, LITERARY INSTITUTION, CIRCULATION OF IDEAS. PRESENTATION AFRICAS, INSTITUCIÓN LITERARIA, CIRCULACIÓN DE IDEAS. PRESENTACIÓN Nazir Ahmed Can1, Marcello G. P. Stella2, Ricardo Pedrosa Alves3, Andréa Borges Leão4 e Maria-Benedita Basto5 Favorecendo um tipo de aproximação científica às trocas internacionais de bens simbólicos, Pierre Bourdieu (2002), em um artigo fundador, defende que, ao contrário do que poderia supor a maioria de agentes do universo literário, as propostas artísticas não circulariam livremente pelo mundo. As mesmas barreiras que limitam o trânsito dos bens econômicos ensombram, para ele, o trânsito e o reconhecimento dos bens culturais. Desta premissa decorrem duas importantes formulações para o estudo aqui proposto: um objeto não carrega consigo, de maneira plena, o seu contexto de produção; todo objeto simbólico é lido e interpretado de acordo, também, com as categorias de seu novo campo de recepção. A análise centrada nas relações entre texto e instituição literária nos países africanos de língua portuguesa pode contribuir para o aprofundamento desta discussão e, como tal, para o alargamento das balizas recortadas pela mirada teórica. Os laços entre texto e instituição têm sido, aliás, objeto de estudo sistematizado nas últimas décadas, sobretudo em países ocidentais de língua inglesa e francesa. Uma menor atenção tem sido dada, todavia, às produções artísticas de outras tradições linguísticas. Apesar de ser a sexta mais falada no mundo, a língua portuguesa ocupa uma posição marginal neste debate e, de um modo mais amplo, no jogo de intercâmbio econômico e cultural. As literaturas africanas em língua portuguesa situam-se em um lugar ainda mais secundário em relação às suas congêneres, 1 Universitat Autònoma de Barcelona / Serra Húnter Fellow, Nazir.Ahmed.Can@uab.cat 2 Universidade de São Paulo, marcello.stella1@gmail.com 3 Universidade Estadual de Ponta Grossa, ricardopedralves@gmail.com 4 Universidade Federal do Ceará, aborgesleao@gmail.com 5 Sorbonne Université, mbbasto@yahoo.com. A revista Mulemba utiliza uma licença Creative Commons - Atribuição- Não Comercial 4.0 Internacional (CC-BY-NC). 11 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 13 | Número 25 | p.11 - 19 | jul. - dez. 2021. ISSN:2176-381X Áfricas, instituição literária, circulação de ideias. Apresentação Nazir Ahmed Can, Marcello G. P. Stella, Ricardo Pedrosa Alves, Andréa Borges Leão e Maria-Benedita Basto sendo agrupadas frequentemente em uma espécie de “gueto”. Não à toa, Inocência Mata (1995), em uma feliz síntese, afirmou serem elas, as textualidades africanas, “a periferia da periferia” dos estudos literários. Com efeito, para além da herança armadilhada deixada pela expansão ocidental no mundo, cujos desdobramentos no plano material são incalculáveis, não é difícil constatar a reprodução de uma hierarquia epistemológica que se traduz, entre outros, em uma escala de valoração literária que pouco tem a ver com o valor estético das obras. Associadas às ideias de “troca” e de “valor”, as noções de “passagem” e “fronteira” devem também ser antevistas como parte de uma complexa dinâmica onde nem todos participam de forma equitativa. Uma abordagem que inclua, por exemplo, o lugar das línguas minoritárias nesse processo, a começar por aquelas que não são convidadas a jogar no mesmo campo de produção, como as africanas, permitiria uma melhor compreensão sobre os fenômenos da mobilidade das obras e circulação da cultura literária, da consagração e da legitimação de autores e textos. Como assinalam também, entre outros, Sapiro (2019), Helgesson (2011) e Thompson (2013), as lógicas transnacionais de funcionamento e hierarquização operam decisivamente na definição de cânones e, por conseguinte, do que merece ou não ser divulgado, do que deve ou não ser traduzido, do que é passível ou não de ser estudado e premiado, etc. A pouca relevância que tem o ensino das línguas locais africanas fora mas também dentro do continente africano é igualmente uma peça mestra nessa dificuldade de produção e circulação de textos. Por sua natureza ambígua, ora descentralizada – na medida em que os principais centros de produção e de recepção quase nunca convergem –-, ora confinada – por fatores de ordem econômica, cultural e linguística –, as literaturas africanas oferecem dados que não devem ser desconsiderados na equação que fazemos sobre os rumos da literatura mundial. Por um lado, como se sabe, elas integram-se atualmente em instituições mais ou menos fragilizadas e quase sempre dependentes do reconhecimento de instâncias internacionais. A África, recorde-se, é o continente que acumula a maior dívida externa (com as mais elevadas taxas de juro) do mundo. Como resultado desse problema que vem de trás e agudiza-se hoje, a relação com o resto do mundo, também no campo artístico, é pautada pela disparidade. O texto de abertura deste dossiê, de Gisèle Sapiro, mostra-nos como é possível e necessário integrar o continente africano em uma discussão mais ampla; ou, visto de outro ângulo, revela-nos a possibilidade e a necessidade de inserir no debate sobre as literaturas mundiais as especificidades ou as lógicas de continuidade sugeridas pelos textos e pelas instituições africanas. Por outro lado, devido ao fim tardio do colonialismo europeu, os países africanos perspectivaram um modelo de nação há relativamente pouco tempo – se os compararmos, por exemplo, com as antigas metrópoles imperiais. Além disso, a África abriga muitas Áfricas, com temporalidades de colonização e descolonização diferentes, opções políticas e ideológicas contrastantes, formas de organização social diversificadas, entre outros fatores que inibem qualquer forma discursiva que insista em sua uniformização. Ao contrário da esmagadora maioria das nações do continente, 12 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 13 | Número 25 | p.11 - 19 | jul. - dez. 2021. ISSN:2176-381X que negociaram com as antigas metrópoles as suas independências, os países africanos de língua portuguesa conquistam sua liberdade por via da luta armada, optam por um outro registro de inscrição ideológica (fundamentalmente apoiada por preceitos de origem marxista-leninista) e inserem-se no concerto das relações internacionais em um período específico do capitalismo e da Guerra Fria. Todos estes dados afetam, naturalmente, o modelo de Estado-Nação adotado. Mesmo se tivermos em conta as distintas velocidades de um continente habitado por mais de meia centena de países, cujas fronteiras foram na grande maioria dos casos desenhadas pelas potências coloniais europeias, rapidamente constatamos que, ali, a nação constitui ainda um projeto em curso. De que modo, portanto, podemos discutir o fenômeno da transnacionalidade em lugares onde a própria ideia de nação não vingou completamente? Na mesma linha de raciocínio, podem as noções de “circulação” e “transnacionalidade” ser aplicadas de forma indiscriminada e passiva em ambientes, como estes, atravessados por desagregações de diferente natureza que dificultam, entre outros, as próprias trocas intracontinentais? A ser possível, que variáveis devem ser inseridas nesse tipo de investigação? O presente dossiê nasce, pois, com o intuito de identificar e refletir sobre determinadas dinâmicas textuais e institucionais que confirmam a importância (e a desigual participação) das literaturas africanas de língua portuguesa no mundo e do mundo nas Áfricas. Para tal, lançamos há alguns meses uma série de possibilidades de leitura que poderiam ser integradas na análise. Dentre elas, destacamos as seguintes: a relação entre texto e instituição literária em espaços pouco (re)conhecidos mundialmente; a dependência institucional dos espaços literários africanos de língua portuguesa face às instâncias de legitimação internacional; o papel desempenhado pelas instituições de promoção locais; a importância do levantamento e posterior debate acerca dos prêmios literários e outras instâncias de consagração, como feiras e festivais, dentro e fora dos espaços de língua portuguesa; o impacto do mercado editorial e da imprensa no passado e no presente; as características dos campos literários africanos e sua relação, mais ou menos tensa, com os respectivos Estados Nação; as trajetórias de pesquisadores(as) e seus aparatos críticos; a relevância de grupos literários e de associações nacionais e internacionais; os impasses engendrados por noções que sugerem a ideia de comunidade linguística, tais como “PALOP” ou “lusofonia”; o peso da tradução e das políticas de tradução no universo literário africano; o potencial, os limites e as articulações das ferramentas heurísticas “campo”, “sub-campo” e “heteronímia” (Bourdieu), “sistema” (Candido), “símile-campo” (Poliak) e redes literárias (Marneffe e Denis) nas análises sobre o fato literário africano; os laços entre língua e poder na contemporaneidade; os vestígios imperiais na institucionalização das literaturas africanas. A partir desta pluralidade de caminhos, aqui apenas resumida, recebemos um não menos significativo volume de propostas. A identificação de um número igualmente massivo de pareceristas, o tratamento, a seleção dos artigos e a posterior comunicação com os autores explicam em parte a necessidade que tivemos de fechar o número com algumas semanas de 13 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 13 | Número 25 | p.11 - 19 | jul. - dez. 2021. ISSN:2176-381X Áfricas, instituição literária, circulação de ideias. Apresentação Nazir Ahmed Can, Marcello G. P. Stella, Ricardo Pedrosa Alves, Andréa Borges Leão e Maria-Benedita Basto atraso. Somos muito gratos a todos os avaliadores pelo esforço de discutir textos e sugerir modificações em um momento como o atual, marcado pela crise sanitária e, consequentemente, pela sobreposição de demandas de distinta ordem. Agradecemos muito também aos autores que nos acompanham neste número. Sua contribuição, como se pode constatar nas páginas que se seguem, permite a ampliação de horizontes de um debate que, naturalmente, não se esgota aqui. “O Campo Literário Transnacional entre o (Inter)-nacionalismo e Cosmopolitismo”, tradução de Ana Beatriz Matte Braun de “The Transnational Literary Field between (Inter)-nationalism and Cosmopolitanism”, artigo publicado por Gisèle Sapiro, em 2020 no Journal of World Literature, abre o nosso dossiê. A autora propõe um exercício de aproximação a diferentes escalas que se fundam na noção de “espaço”: “internacional”, “transnacional”, “global”, “mundial” e “cosmopolita”. Depois de identificar as características de cada um desses operadores analíticos e axiológicos, traça um panorama de seu funcionamento. Desse modo, explica-nos como se dá a interação entre os campos literários e entre os agentes que neles participam, bem como as mudanças de escala produzidas pela escolha de um operador em detrimento de outro. A autora transita, assim, do período do “inter-nacionalismo”, situado entre final do século XIX e a Segunda Guerra Mundial, para o período do “desenvolvimentismo”, época de alargamento das fronteiras do campo literário para além do mundo ocidental, que se encerra entre o fim do século XX e começo do XXI. Finalmente, observa como, no tempo atual, marcado pela “globalização” dos mercados de bens simbólicos, algumas das principais contradições de hoje confirmam a desigualdade nesse processo de contatos parciais. Originalmente publicado com o título “Shifting Fields: Imagining Literary Renewal in ‘Itinerário’ and ‘Drum.’”, na revista Research in African Literatures, em 2007, o texto de Stefan Helgesson, traduzido para o português por Marcello G. P. Stella, parte da comparação de duas revistas literárias africanas: Drum (1951 -), da África do Sul, e Itinerário (1941 – 1955), de Moçambique. Identificando os principais momentos de cada uma delas, o autor examina o impacto das redes intelectuais transnacionais e analisa os horizontes discursivos nos quais ambas se projetavam. Ao mesmo tempo, localiza as principais diferenças estéticas, ideológicas e linguísticas das duas revistas. De um lado, como constata Helgesson, temos Itinerário com uma vocação de vanguarda engajada contra a cultura colonial burguesa; de outro lado, emerge Drum, mais voltada para os elementos de composição mercadológicos, inclinando-se para uma cultura de massas racializada e para ideais literários cuja principal missão seria a de educar os negros sul-africanos. A partir dos dois casos, finalmente, o texto apresenta traços que diferenciam, ontem e hoje, as literaturas de Moçambique e da África do Sul. Helena González Doval, por sua vez, no artigo “A constante eurocêntrica? Uma aproximação ao estudo da literatura moçambicana através de artigos em revistas acadêmicas para a reflexão epistemológica”, examina diferentes espaços de recepção da literatura moçambicana. Recorrendo a um estudo bibliométrico que parte de um corpus elaborado 14 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 13 | Número 25 | p.11 - 19 | jul. - dez. 2021. ISSN:2176-381X com textos acadêmicos, publicados entre 1975 e 2018 em revistas portuguesas, brasileiras e moçambicanas, a autora constata a diversidade de olhares e interesses e sinaliza a existência de um viés eurocêntrico a atravessar tal produção. Depois de realçar o protagonismo brasileiro neste campo de produção, o decréscimo de pesquisas portuguesas e a tendência de autores de outros contextos para um tipo de análise mais centrada em questões de natureza teórica, fatores que conjuntamente contribuem para as consecutivas mudanças nas listas de escritores e obras mais estudados, Helena González Doval propõe algumas pautas de atuação, de foro pedagógico e autorreflexivo, que poderiam enriquecer o exercício da pesquisa e a aproximação a epistemologias alternativas. No artigo “Negritude e Pan-Africanismo da Présence Africaine à Mensagem: um roteiro da circulação de ideias e impressos (depois de 1945)”, Noemi Alfieri atenta para algumas das rotas que permitiram a circulação das ideias negritudinistas e pan-africanistas e dos impressos que as veiculavam no continente africano e na Europa após a Segunda Guerra Mundial. Privilegiando em sua reflexão as características e os desequilíbrios da circulação de pessoas, impressos e ideias, a autora salienta o papel das revistas Présence Africaine e Mensagem nesse período de insuspeitadas transformações. Noemi Alfieri mostra-nos como estas revistas foram representativas dos contrastes e tensões da época, assim como das disparidades geradas pela dominação colonial e seus efeitos na produção artística e na fruição cultural. Com efeito, ao enfatizar também as ausências do processo, que sugerem o modo como os arquivos são armazenados, preservados e catalogados, a autora cartografa não só alguns dos percursos possíveis, como também os “vazios e desvios” que estão ainda hoje na origem da desigualdade no jogo das relações culturais e na produção e interpretação das ideias. Também sensível ao impacto da imprensa na história das literaturas africanas, Elizabeth Olegario Bezerra da Silva, em “A literatura africana na imprensa cultural portuguesa (1953-1959)”, revisita as posições críticas construídas na imprensa portuguesa, entre 1953 e 1959, à volta do Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, volume organizado por Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro. A autora apresenta os contornos de algumas polêmicas protagonizadas por intelectuais como Mário Pinto de Andrade, Óscar Lopes e Gaspar Simões, dentre as quais se destacam: os laços entre literatura e libertação política; a natureza e função da arte; a dimensão mais ou menos engajada do objeto literário; a arte enquanto instância que se tem a si mesma como finalidade; os critérios formais e/ou temáticos que devem nortear o investimento artístico, etc. Sublinhando, portanto, a recepção de livros e autores, a estudiosa apresenta dados com o objetivo de compreender o que em causa estava naquele período e de reconhecer o papel desempenhado pela mediação extra-literária na construção de um repertório. Já Carlos Eduardo Pinto Vergueiro Filho, em “José Craveirinha e a Casa dos Estudantes do Império: a poesia nas antologias da C.E.I.”, situa sua análise na poesia publicada pelo poeta moçambicano em três antologias da Casa dos Estudantes do Império e, ao mesmo tempo, revisita 15 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 13 | Número 25 | p.11 - 19 | jul. - dez. 2021. ISSN:2176-381X Áfricas, instituição literária, circulação de ideias. Apresentação Nazir Ahmed Can, Marcello G. P. Stella, Ricardo Pedrosa Alves, Andréa Borges Leão e Maria-Benedita Basto a divulgação de textos literários africanos e de Moçambique em Portugal nos anos 1950 e 1960. Enfatizando os contextos espacial e temporal dessa produção, que coincide com a criação da Casa dos Estudantes do Império logo após a II Guerra Mundial, assim como o impacto da CEI, enquanto núcleo de resistência anticolonial nos anos subsequentes, o autor procura demonstrar como Craveirinha projetava em seus sujeitos poéticos a possibilidade de expressar os conflitos por prismas até então desconhecidos. Embora Craveirinha não tenha habitado a Casa dos Estudantes do Império, os poemas aqui analisados, segundo Carlos Eduardo Pinto Vergueiro Filho, ratificam um outro tipo de aproximação e de intervenção artística que fazem entrecruzar de maneira plena a vida do poeta, os ideais que reivindicou como artista e cidadão e a história de intervenção política e estética da CEI. “Estória da galinha e do ovo: africanidade e brasilidade” parte da clássica narrativa incluída em Luuanda, do angolano José Luandino Vieira. Neste artigo, Aurora Cardoso de Quadros, além de procurar combinar uma análise textual e uma reflexão sobre o contexto sócio-político da capital angolana de então, localiza alguns pontos de comunhão com a realidade brasileira de hoje. A estória desenhada por Luandino e protagonizada por duas moradoras de um musseque apresenta a disputa pelo reconhecimento da propriedade de uma galinha e de seu ovo. Desfila no musseque um cortejo de personagens de diferentes quadrantes sociais e com variadas intenções. Para Aurora Cardoso de Quadros, mais do que refletir os pontos de vista ideológicos de cada fração da população ali representada, a narrativa deixa em aberto múltiplas possibilidades de sentido sobre um mesmo conflito. Segundo a autora, a narrativa de Luandino circunscreve-se menos na esfera do relato testemunhal sobre Angola do que em uma leitura sobre a forma como se originam e se processam tensões em ambientes periféricos, desiguais e violentos. Este dado permite, em última análise, uma aproximação à sociedade brasileira atual. O dossiê encerra-se com a primeira entrevista de Stefan Helgesson publicada em uma revista científica brasileira. Conduzida por Marcello G. P. Stella, a discussão centra-se no livro Transnationalism in Southern African Literature, editado em 2011 pela Routledge. Nele, Helgesson faz entrecruzar uma reflexão de natureza teórica, prática e metodológica com a finalidade de examinar comparativamente as literaturas africanas de língua inglesa, em particular a sul-africana, e as literaturas africanas de língua portuguesa, em especial a moçambicana. O professor do Departamento de Inglês da Universidade de Estocolmo aborda, neste encontro com Stella, a pesquisa de pós-doutorado que desenvolveu e da qual resultou o livro acima citado, além de relatar alguns momentos de sua trajetória pessoal. Após referir o modo como suas origens sociais foram decisivas para a definição de seus objetos de interesse acadêmico, Helgesson avalia a pertinência da abordagem trabalhada por Pierre Bourdieu e alguns de seus discípulos, a teoria dos campos, as ferramentas teóricas e heurísticas de Kittler e as redes discursivas. Ao ressaltar os riscos do uso passivo de certas premissas pensadas para outros contextos, mostra-se sensível às especificidades da vida literária nos espaços africanos. 16 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 13 | Número 25 | p.11 - 19 | jul. - dez. 2021. ISSN:2176-381X O artigo “A invenção de uma nova linguagem no romance A casa velha das margens”, de Alessandra Cristina Moreira Magalhães, abre a sessão “Temas Livres” deste número. Com o apoio dos subsídios teóricos de Frantz Fanon e Albert Memmi, a autora relaciona questões de ordem sócio-política e elementos textuais para analisar o modo como, no romance do escritor angolano Arnaldo Santos, as relações entre língua e poder são representadas. Sublinhando a constante passagem de um código a outro, em particular o tráfego da linguagem oral para a língua escrita operado nesta narrativa que se ambienta no século XIX, Alessandra Cristina Moreira Magalhães identifica um conjunto de dados que aponta para a ideia de resistência à opressão colonial e, indiretamente, para a necessidade de reconhecermos hoje as pessoas que se opuseram à longa noite da expansão ocidental no continente africano. Assim, além de conferir unidade ao programa literário de Arnaldo Santos, esta obra, para a estudiosa, ratifica o desejo de renovação do compromisso ético e estético do autor de Kinaxixe. A representação do universo das crianças nas literaturas africanas de diferentes tradições linguísticas, com particular incidência na obra do angolano Ondjaki, é o objeto de análise de “Lembrando, deslembrando e comparando: o narrador infantil ondjakiano no contexto da literatura africana”, artigo de Sandra Sousa. Privilegiando em sua reflexão a narrativa O Livro do Deslembramento, a estudiosa defende que Ondjaki é o escritor, no contexto das literaturas africanas de língua portuguesa, que mais se apodera de narradores e personagens crianças. Como tal, parte do conjunto da obra do autor angolano para chegar à escrita produzida em outros territórios literários africanos. Seu objetivo é não apenas explorar a inscrição de crianças como “veículos narrativos”, mas também compreender como se situa a obra de Ondjaki em um espaço mais alargado, isto é, não circunscrito à língua portuguesa. Concluído o exercício comparativo, Sandra Sousa assinala alguns pontos que distinguem a pluma do autor angolano: a sutileza com que narra o passado e a construção de uma linguagem mais dissimulada que confere um maior impacto poético e simultaneamente um peculiar registro de verossimilhança. Luciana Brandão Leal, por seu turno, em um artigo intitulado “Rui Knopfli: feições de um poeta dissonante e melancólico”, propõe uma leitura da poesia de Rui Knopfli – reunida nas antologias Memória Consentida: 20 anos de poesia 1959/1979 (publicada em Portugal em 1982 pela Imprensa Nacional Casa da Moeda) e Antologia Poética (editada no Brasil em 2010 pela Editora da Universidade Federal de Minas Gerais) – ancorada na ideia de “geopoética”. Recuperando elementos do conhecido debate entre Alfredo Margarido e Eugénio Lisboa acerca do fazer literário em tempos de transição revolucionária, a autora ensaia uma defesa de Rui Knopfli. Apesar de acusado, como refere a estudiosa, de ser um estrangeiro em Moçambique por não se envolver plenamente com um certo tipo de registro ideológico e, em particular, com o compromisso da luta anticolonial, o poeta é, ainda segundo Luciana Brandão Leal, um modelo no que diz respeito à busca de novas formas de reivindicação da liberdade. Com o objetivo de validar esta hipótese, apresenta inúmeros poemas do autor de A Ilha de Próspero e reconhece a 17 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 13 | Número 25 | p.11 - 19 | jul. - dez. 2021. ISSN:2176-381X Áfricas, instituição literária, circulação de ideias. Apresentação Nazir Ahmed Can, Marcello G. P. Stella, Ricardo Pedrosa Alves, Andréa Borges Leão e Maria-Benedita Basto importância do espaço em sua concepção de poesia. “Identidades sociais e diásporas no romance Vinte e Zinco de Mia Couto: uma leitura” é o título do artigo de William Soares dos Santos. Focalizando uma das muitas obras daquele que é talvez o autor africano mais visitado pelo olhar crítico na atualidade, o estudioso procura localizar o elo que faz conectar representação literária e sociedade. Com base nessa opção, sugere o uso do termo “identidades” para registrar a pluralidade de opções adotadas pelas populações que coexistem em território moçambicano e, de certo modo, nas páginas de Mia Couto. Com efeito, para William Soares dos Santos, Mia Couto não apenas celebra a diversidade interna moçambicana, mas também interpela uma história permeada por tensões das quais resultam feridas que ainda hoje seguem expostas. Um dos principais papéis desempenhados pela literatura de Mia Couto, segundo o autor, é o de repensar a origem e as consequências de conflitos que afetam o cotidiano de pessoas comuns, reconvertem identidades e produzem permanentes oscilações no estilo de vida das periferias locais. Em “Religião, literatura e a dinâmica colonial na África”, Adilson Vagner de Oliveira, Ana Cássia Gualda Bersani, Emilaine Cardoso Alves, Felipe Guedes Moreira Vieira e Maria Vitória S. de Sousa investigam as relações entre religiosidade e colonização em quatro narrativas de distintos contextos: O Outro Pé da Sereia (2006) e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003), do moçambicano Mia Couto; A Gloriosa Família: o tempo dos flamengos (1999), do angolano Pepetela; e, finalmente, a tradução de A flecha de Deus (2011), romance do nigeriano Chinua Achebe. Embora os trabalhe de maneira separada, o artigo visa identificar semelhanças no que tange aos efeitos da colonização nos terrenos por onde circulam as religiosidades africanas, realçando, além disso, as tensões e determinados sincretismos que desse embate resultaram. Aproximando obras escritas em língua portuguesa e em língua inglesa, o artigo pretende, pois, demonstrar como foram diversas e ao mesmo tempo próximas as formas de violência engendradas no tempo colonial. Fechando a seção de “Temas Livres”, Gabriel Chagas oferece uma leitura de um dos romances da escritora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida no artigo “Aquiles, o contemporâneo calcanhar de Luanda, Lisboa, Paraíso: diante do desabrigo, o desamparo de uma casa que se perdeu”. Para o autor, um dos elementos que merecem ser destacados em Luanda, Lisboa, Paraíso é a reflexão que ali se instala à volta das noções de “casa” e de “regresso”. Integrando ambos os temas na longa tradição literária portuguesa, Gabriel Chagas chama a atenção para o fato de Djaimilia Pereira de Almeida, subvertendo os modelos anteriores, criar um novo tipo de representação sobre o trânsito identitário. Por outro lado, o autor estabelece a relação entre as personagens da narrativa e a tradição clássica da epopeia homérica, em concreto a partir de Odisseu e Aquiles. Finalmente, Gabriel Chagas, com o apoio de textos de Mônica Figueiredo e de Roberto DaMatta, sinaliza a importância da noção burguesa de “lar”, desenvolvida na modernidade. Com o auxílio de Grada Kilomba e Angela Davis, entrelaça 18 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 13 | Número 25 | p.11 - 19 | jul. - dez. 2021. ISSN:2176-381X todas estas preocupações com certos pressupostos dos estudos pós-coloniais. Resta-nos, enfim, reiterar os agradecimentos aos autores destes textos, aos pareceristas que nos acompanharam em todo o processo, à equipe da Mulemba e, pelo apoio que torna possível a publicação de mais um número de nossa revista, ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da UFRJ. REFERÊNCIAS BOURDIEU, Pierre. Les conditions sociales de la circulation internationale des idées. Actes de la recherche en sciences sociales, v. 145, p. 3-8, dezembro de 2002. DOI : https://doi. org/10.3406/arss.2002.2793 . Disponível em: www.persee.fr/doc/arss_0335-5322_2002_ num_145_1_2793. Acesso em: 02 jul. 2019. HELGESSON, Stefan. Transnationalism in Southern African Literature: Modernists, realists, and the inequality of print culture. Nova Iorque: Routledge, 2011. MATA, Inocência. A periferia da periferia. Discursos [Em linha]: estudos de língua e cultura portuguesa, nº 9, p. 27-36, fevereiro de 1995. SAPIRO, Gisèle. A noção de campo de uma perspectiva transnacional. Plural, v. 26, n°. 1, p. 233-265, 12 julho de 2019. THOMPSON, John B. Mercadores de cultura: o mercado editorial no século XXI. São Paulo: Editora Unesp, 2013. 19 Mulemba. Rio de Janeiro: UFRJ | Volume 13 | Número 25 | p.11 - 19 | jul. - dez. 2021. ISSN:2176-381X