Quaderns de Psicologia | 2023, Vol. 25, Nro. 2, e1921 ISNN: 0211-3481  https://doi.org/10.5565/rev/qpsicologia.1921 Ciúme, Violência Conjugal e Saúde Mental: Prevalência e Fatores Associados Jealousy, Domestic Violence and Mental Health: Prevalence and Associated Factors Dayse Chaves Lemos Universidade Ceuma Denise Falcke Eduarda Lima de Oliveira Universidade do Vale do Rio dos Sinos Resumo O ciúme e a violência conjugal são fenômenos complexos que precisam ser melhor compreen- didos, especialmente no que se refere às suas repercussões na saúde mental. O presente estu- do teve por objetivo mensurar a associação entre ciúme, violência conjugal e saúde mental (ansiedade, depressão e estresse). Participaram 194 pessoas, sendo 151 mulheres e 43 homens, com idade de 19 a 58 anos, casados ou em união estável. Os instrumentos foram: questionário sociodemográfico, Revised Conflict Tactics Scale, Interpersonal Jealousy Scale, Inventário de Ciúme Romântico e Escala de Ansiedade, Depressão e Estresse. Constatou-se alta prevalência de violência, chegando a índices de 85,4% de homens que admitem cometer agressão psicológi- ca em seu relacionamento. Destaca-se maior prevalência do ciúme, violência conjugal e adoe- cimento mental em pessoas com menor escolaridade e renda, sem união oficializada e sem fi- lhos. É importante que esses fatores sejam observados como de risco para ocorrência da vio- lência conjugal e suas repercussões. Palavras-chave: Ciúme; Violência conjugal; Saúde mental; Casais Abstract Jealousy and intimate partner violence are a phenomenon that need to be better understood, especially regarding repercussions on mental health. The present study aimed to measure the association between jealousy, intimate partner violence and mental health (anxiety, depres- sion, and stress). A total of 194 people participated, 151 women and 43 men, aged 19 to 58 years, married or in a stable relationship. The instruments were: sociodemographic question- naire, Revised Conflict Tactics Scale, Interpersonal Jealousy Scale, Romantic Jealousy Invento- ry and Anxiety, Depression and Stress Scale. A high prevalence of violence was found, reaching 85.4% of men who admit to committing psychological aggression in their relationship. There is a higher prevalence of jealousy, marital violence and mental illness in people with lower edu- cation and income, without an official union and without children. It is important that these factors are observed as risk factors for the occurrence of conjugal violence and its repercus- sions. Keywords: Jealousy; Intimate partner violence; Mental health; Couples 2 Chaves Lemos, Dayse; Falcke, Denise; Oliveira, Eduarda Lima de INTRODUÇÃO A violência conjugal é considerada uma violência interpessoal e uma das formas mais comuns de violência, que apresenta alta incidência e pode trazer prejuí- zos à saúde dos indivíduos envolvidos, causando sofrimento psicológico (Razera e Falcke, 2014). Autores da área destacam as diferentes formas de violência e descrevem como: violência física, agressão psicológica, coerção sexual e lesão corporal, que podem ser subdivididas em menor e grave, considerando a inten- sidade dos atos (Straus et al., 1996). Os estudos no contexto da violência, por terem um caráter histórico decorrente de uma cultura patriarcal, baseiam-se na perspectiva de gênero, destacando a assimetria de poder entre homens e mulheres (Brancaglioni e Fonseca, 2016; Rodrigues et al., 2016). Outra perspectiva considerada é a sistêmica, que com- preende que os parceiros podem exercer múltiplos papéis na conjugalidade e que cada casal apresenta uma dinâmica própria na qual a violência pode se ex- pressar de forma uni ou bidirecional (Falcke et al., 2009; Razera et al., 2021), dependendo de diferentes marcadores de poder na relação como gênero, raça, escolaridade, status econômico, entre outros. Destaca-se que, neste trabalho, será adotada a perspectiva sistêmica para a compreensão do fenômeno. Alguns estudos citam características sociodemográficas que podem se relacio- nar com a violência (Colossi, Marasca et al., 2015; Colossi, Razera et al., 2015; Holanda et al., 2017). No estudo de Eliane Holanda et al. (2017), que teve por objetivo investigar os fatores associados à violência contra as mulheres na atenção primária à saúde em um município da zona da mata Pernambucana, fo- ram analisadas 512 fichas de atendimentos a mulheres em situação de violên- cia. Os resultados evidenciaram que houve a predominância da violência física (65%) praticada por companheiro conjugal em mulheres jovens, com baixa es- colaridade, em união estável e com condições econômicas precárias. O consu- mo de álcool pelo agressor apareceu como principal comportamento de risco neste estudo. No mesmo sentido, o estudo de Patrícia Manozzo Colossi, Razera et al (2015), realizado com 186 casais residentes na região metropolitana de Porto Alegre, que se encontravam casados ou em união estável, mostrou que a prevalência da violência nesse público se apresentou em casais com idade mais jovem, com baixa escolaridade e renda, vivendo em união estável e com níveis menores de religiosidade. Além das características sociodemográficas que se relacionam com a violência conjugal, é importante compreender os fatores que ser precipitadores da vio- lência conjugal. O ciúme neste cenário aparece como um dos principais fatores desencadeantes da violência nos relacionamentos íntimos (Costa et al., 2016; Deeke et al., 2009; Gomes et al., 2011; Lacerda e Costa, 2013; Marques e Cole- http://quadernsdepsicologia.cat Ciúme, Violência Conjugal e Saúde Mental: Prevalência e Fatores Associados 3 ta, 2010; Paixão et al., 2014; Swan et al., 2012). Ao destacar o ciúme como um dos principais fatores que pode influenciar na ocorrência da violência conjugal é importante que se entenda que o ciúme pode ter diferentes manifestações (Almeida et al., 2008). Dentre essas formas em que se apresenta, pode ser ca- racterizado como manifestação de amor e ao mesmo tempo como um senti- mento patológico, que produz angústia e tentativa de controlar o parceiro (Al- meida et al., 2008). O ciúme não se apresenta de forma isolada no relaciona- mento e por isso pode gerar respostas emocionais e comportamentais (Baron- celli, 2011), tanto na pessoa que o vivencia como no/a parceiro/a e na própria relação, podendo estar vinculado ao sentimento de ameaça, que alimenta a in- segurança afetiva e a percepção de pertencimento/posse ao outro (Almeida et al., 2008). Uma Pesquisa qualitativa, realizada com casais de Uganda e Rwanda, descreveu os desafios ao relacionamento que ocorrem em função do ciúme, como quebra de confiança, conflitos e comportamentos controladores, que podem culminar em violência psicológica e física. O ciúme, neste estudo, foi compreendido co- mo operando diferentes caminhos de gênero, uma vez que as mulheres referi- ram questionar seus parceiros sobre o paradeiro e as intenções deles por causa do ciúme e da suspeita de infidelidade, enquanto os homens mostravam-se co- mo ciumentos ou desconfiados das parceiras em situações de socialização, por atraírem atenção de outros homens, e usavam a violência como resposta (Kye- gombe et al., 2022). Uma revisão sistemática da literatura foi conduzida por Marjorie Pichon e cola- boradoras (2020), para avaliar evidências do ciúme e infidelidade como impul- sionadores de violência nos relacionamentos íntimos, considerando que esses fenômenos permanecem subteorizados e subutilizados na pesquisa e prevenção de violência conjugal. Os dados de 51 artigos de 28 países foram analisados e as evidências mostraram associação consistente entre ciúme romântico, infideli- dade real ou suspeita e violência conjugal. São sugeridos novos estudos consi- derando os possíveis impactos no adoecimento psíquico dos membros do casal. A associação entre o ciúme e a violência conjugal pode causar danos à saúde mental de indivíduos que os vivenciam (Sequeira et al., 2014). Em estudos rea- lizados com mulheres vítimas de violência por parceiros íntimos, os resultados indicam correlação entre a violência sofrida e os sintomas de adoecimento psí- quico (Adeodato et al., 2005; Hatzenberger et al., 2010). Outras pesquisas também descrevem possíveis vinculações entre a violência sofrida e o desen- volvimento de transtornos depressivos, estresse pós-traumático e ansiedade (Adeodato et al., 2005; Gomes et al., 2012; Hatzenberger et al., 2010). Quaderns de Psicologia | 2023, Vol. 25, Nro. 2, e1921 4 Chaves Lemos, Dayse; Falcke, Denise; Oliveira, Eduarda Lima de Ainda que já existam evidências de associações entre ciúme e violência e entre violência e adoecimento psíquico, não foram localizadas pesquisas em nosso contexto que articulem essas três variáveis. Frente ao exposto sobre os danos causados pelo ciúme e pela violência e sua repercussão na saúde mental dos indivíduos expostos a ela (Holanda et al., 2017), o presente estudo possui como objetivo mensurar os níveis de ciúme, violência conjugal e de saúde mental (ansiedade, depressão e estresse), verificando associação entre essas variáveis, e analisar possíveis correlações com variáveis sociodemográficas, em homens e mulheres. MÉTODO Trata-se de uma pesquisa de caráter quantitativo, transversal, comparativo e correlacional (Sampieri et al., 2013). Amostra A amostra foi composta por 194 participantes de diferentes estados brasileiros (Alagoas, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Ge- rais, Pará, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins). Desses, 151 eram mulheres e 43 homens, com idade variando de 19 a 58 anos, que estiveram em um relacionamento conjugal heterossexual, casados ou em coabitação. Foi um critério de inclusão o relacio- namento ter duração de pelo menos um ano, que é o tempo indicado pela lite- ratura como etapa inicial para construção de uma conjugalidade (Tissot e Fal- cke, 2017). A Tabela 1 descreve as características sociodemográficas dos parti- cipantes. Características N % Feminino 151 77,8 Sexo Masculino 43 22,2 Casado 141 73,4 Situação Conjugal Morando Junto 51 26,6 1 a 5 anos 70 36,5 6 a 10 anos 54 28,1 11 a 20 anos 50 26,0 Tempo com atual 21 a 25 anos 7 3,6 companheiro 25 a 30 anos 7 3,6 Mais de 30 anos 4 2,1 Sim 34 17,5 Casamento anterior Não 160 82,5 Sim 109 56,2 Filhos Não 85 43,8 http://quadernsdepsicologia.cat Ciúme, Violência Conjugal e Saúde Mental: Prevalência e Fatores Associados 5 Características N % 1 filho 48 44,0 2 filhos 43 39,4 Quantos filhos 3 filhos 11 10,1 4 filhos ou mais 7 6,4 1 a 5 anos 48 44,9 6 a 10 anos 23 21,5 Idade dos filhos 11 a 15 anos 14 13,1 16 a 20 anos 7 6,5 Mais de 20 anos 15 14,0 Ensino médio 32 16,5 Escolaridade Ensino superior 71 36,6 Pós-graduação 91 46,9 Exerce atividade Sim 155 80,3 remunerada Não 38 19,7 Autônomo 30 15,7 Empregado 123 64,4 Desempregado 12 6,3 Situação de trabalho Estudante 18 9,4 Aposentado/pensionista 2 1,0 Não exerço atividade de trabalho fora do 6 3,1 lar 1 salário mínimo 30 17,3 2 a 3 salários mínimos 58 33,5 Renda pessoal 3 a 5 salários mínimos 39 22,5 5 a 10 salários mínimos 29 16,8 Mais de 10 salários mínimos 17 9,8 Católico 64 34,4 Evangélico 73 39,2 Religião Espírita 14 7,5 Ateu/agnóstico/sem religião 19 10,2 Outros 16 8,6 Nada 10 5,2 Quanto é praticante de Pouco 47 24,4 religião Médio 77 39,9 Muito 59 30,6 Tabela 1. Frequências e percentuais das características sociodemográficas da amostra (n=194) Instrumentos Questionário de dados sociodemográficos: criado pelas autoras com o objetivo de descrever as características dos participantes deste estudo. Elaborado com Quaderns de Psicologia | 2023, Vol. 25, Nro. 2, e1921 6 Chaves Lemos, Dayse; Falcke, Denise; Oliveira, Eduarda Lima de questões como: cidade em que residem, situação amorosa, tempo de relacio- namento, filhos, escolaridade e renda, entre outras. Revised Conflict Tactics Scale – CTS 2 (Straus et al., 1996 adaptado por Moraes et al., 2002): a escala é composta por 78 itens em cinco subescalas que repre- sentam as dimensões violência física, agressão psicológica, coerção sexual, le- são corporal e negociação. A pontuação na subescala de negociação não foi uti- lizada neste estudo por não se referir à expressão de violência. As dimensões da escala são divididas entre menor e grave, sendo estas classificações do ins- trumento que consideram a intensidade dos atos violentos. As perguntas estão em forma de checklist para que os participantes assinalem as respostas de ca- ráter relacional que descrevam ações do respondente e reciprocamente de seu companheiro de acordo com as situações apresentadas. Os itens são respondi- dos em escala Likert de oito pontos, variando de nunca aconteceu a aconteceu mais de 20 vezes no último ano. No estudo de Kelly Paim et al. (2012), o coefi- ciente alpha de Cronbach para a CTS2 foi de 0,88, revelando boa consistência interna. Neste estudo, o alpha obtido foi de 0,83. Interpersonal Jealousy Scale – IJC (Mathes e Severa, 1981): Trata-se de um questionário de crenças relacionados ao ciúme, que tem por objetivo medir fa- tores preditores do ciúme, tais como a intensidade e as crenças relacionadas ao ciúme, à insegurança, à autoestima e ao amor romântico. O instrumento é composto por 28 questões, cujas respostas variam em uma escala likert de no- ve pontos. Para a pesquisa foi utilizada a versão traduzida e adaptada por An- drea Costa et al. (2013), que apresentou coeficiente alpha de Cronbach de 0,97. No presente estudo, o alpha foi 0,90. Inventário de Ciúme Romântico – ICR (Bueno et al., 2012): trata-se de um ques- tionário de comportamentos relacionados ao ciúme que tem por objetivo veri- ficar e descrever a ocorrência de reações de ciúmes. O instrumento é composto por 41 itens, respondidos em uma escala do tipo likert de cinco pontos e se apresenta composto por seis fatores: fator 1 - não contato com o parceiro; fa- tor 2 – contato parceiro-rival; fator 3 – agressão ao parceiro; fator 4 – agressão ao rival; fator 5 – autoestima, e fator 6 – investigação. No estudo de Karla Ra- faela Haack e Denise Falcke (2020), os coeficientes alpha de Cronbach variaram de 0,65 a 0,92, sendo superior a 0,8 nos três primeiros fatores (0,92 F1, 0,87 F2, 0,87 F3), próximo a esse valor nos fatores 4, 5 e 6 (0,70 F4, 0,66 F5, 065 F6) e 0,92 na escala total. Neste estudo, o alpha foi de 0,94 para a escala total e variou entre 0,69 e 0,95 considerando os fatores. Escalas de Ansiedade, Depressão e Estresse (EADS 21) (Lovibond e Lovinbond, 1995 adaptada para o português por Vignola e Tucci, 2014): propõe-se a avaliar empiricamente a ansiedade, a depressão e o estresse, segundo o modelo tripar- http://quadernsdepsicologia.cat Ciúme, Violência Conjugal e Saúde Mental: Prevalência e Fatores Associados 7 tido. É composta por 21 itens, e organizada em três subescalas: depressão, an- siedade e estresse, cada uma com sete itens. Os resultados de cada escala são determinados pela soma dos resultados dos sete itens. Sua consistência interna foi de 0,96 no estudo de validação da versão brasileira (Vignola e Tucci, 2014), assim como o alpha obtido neste estudo. Procedimentos éticos e de coleta de dados Para realização deste estudo o projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade e seguiu todas as recomendações éticas e orientações da Resolução 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (2016). O estudo impli- cou em riscos mínimos aos participantes e os dados de identificação dos parti- cipantes foram mantidos em sigilo. A coleta de dados foi realizada de forma online através de um link de pesquisa com o convite, que informava aos usuá- rios os objetivos e procedimentos de pesquisa. Os convites foram enviados por meio de rede sociais e a participação na pesquisa foi voluntária, assim os usuá- rios que quiseram participar da pesquisa deram o aceite no link da pesquisa, concordando com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Procedimentos de Análise dos Dados Os dados foram analisados através do programa SPSS 22.0 (Statistical Package for Social Science). Foram realizadas análises descritivas (frequência, porcen- tagem, médias e desvios-padrão) para avaliar o comportamento das variáveis e testada a normalidade dos dados, assim como análises não paramétricas, consi- derando que os dados não obedeceram à normalidade. Para comparação entre os grupos, foram utilizados os testes de Mann Whitney e Kruskal Wallis, en- quanto a correlação entre as variáveis foi mensurada por meio do teste de Spe- arman. Em todas as análises, foi considerado o nível de significância de 5% (p≤0,05). RESULTADOS Análises descritivas e de comparação entre homens e mulheres Os índices de prevalência dos diferentes tipos de violência identificados no es- tudo podem ser observados na figura 1. É possível observar que os índices de violência cometidos pelos sujeitos variaram de 1,4% na coerção sexual grave cometida pelas mulheres a 85,4% referente à agressão psicológica menor come- tida pelos homens. A violência psicológica foi o tipo de violência mais cometi- da, como representado na figura 1. Quaderns de Psicologia | 2023, Vol. 25, Nro. 2, e1921 8 Chaves Lemos, Dayse; Falcke, Denise; Oliveira, Eduarda Lima de 76,0% Agressão psicológica menor sofrida 80,6% 80,1% Agressão psicológica menor cometida 85,4% 27,9% Agressão psicológica grave sofrida 31,7% Agressão psicológica grave cometida 34,7% 21,4% Violência física menor sofrida 23,0% 20,6% Violência física menor cometida 28,6% 25,0% 10,0% Violência física grave sofrida 18,4% Violência física grave cometida 14,7% 2,7% Coerção sexual menor sofrida 30,5% 22,5% Coerção sexual menor cometida 15,3% 37,5% Coerção sexual grave sofrida 3,5% 5,3% 1,4% Coerção sexual grave cometida 4,9% 0,0% 10,0% 20,0% 30,0% 40,0% 50,0% 60,0% 70,0% 80,0% 90,0% Mulheres Homens Figura 1. Frequência de violência cometida e sofrida por homens e mulheres Os resultados evidenciaram que houve diferença significativa entres os homens e as mulheres na pontuação da dimensão da coerção sexual menor do sujeito (U=2179,00; p=0,01), sendo que os homens apresentaram médias maiores de coerção sexual (m=110,03) em comparação à média feminina (m=87,63). Já a violência física grave do sujeito apresentou diferença significativa entre os se- xos (U= 2209,00; p=0,045), evidenciando que as mulheres referem cometer sig- nificativamente mais violência física grave (m=89,26) do que os homens (m=78,70) na amostra avaliada. Em nenhuma outra dimensão da violência con- jugal foram encontradas diferenças significativas na comparação entre os se- xos. No que diz respeito à comparação dos fatores que medem o ciúme, foram ob- servadas diferenças significativas (U= 1920,00; p=0,04) entre os sexos com as mulheres apresentando médias significativamente maiores no IJC total (m=96,38) em comparação aos homens (m=69,23); assim como nos fatores ICRF2 (U= 2322,50; p=0,470), indicando que as mulheres pontuaram maior per- cepção do parceiro estabelecendo um relacionamento com possível rival http://quadernsdepsicologia.cat Ciúme, Violência Conjugal e Saúde Mental: Prevalência e Fatores Associados 9 (m=97,59) do que os homens (m=78,56); ICRF3 (U=1963,000; p<0,001), revelan- do que as mulheres pontuaram mais (m=102,24) reações agressivas direciona- das ao parceiro em função de ciúme do que os homens (m= 68,88) e ICRF6 (U= 2143,50; p=0,003), pelo qual as mulheres apresentaram pontuação significati- vamente maior (m=101,02) no que se refere a comportamentos de investigação relacionadas à fidelidade do parceiro, em comparação aos homens (m=73,28). O único fator de ciúmes em que os homens apresentaram média significativa- mente maior (U= 2363,500; p=0,032) do que as mulheres foi o ICRF5 (m=110, 35), que descreve reações no qual o indivíduo se atribui a culpa pela possibili- dade de infidelidade do parceiro, em comparação à média da amostra feminina (m=90,08). Não foram observadas diferenças significativas na comparação de médias entre homens e mulheres no que diz respeito às dimensões de saúde mental (ansiedade, depressão e estresse) (p>0,05). Correlação das variáveis Mulheres Homens Dimensões Ansieda- Ansieda- Depressão Estresse Depressão Estresse de de Coerção Sexual Grave Cometida ,199* ,159 ,199* -,066 ,030 ,025 Coerção Sexual Grave Sofrida ,262** ,247** ,213* ,081 ,212 ,245 Coerção Sexual Menor Cometida ,179* ,193* ,176* ,216 ,241 ,192 Coerção Sexual Menor Sofrida ,222** ,188* ,205* -,058 ,053 ,005 Violência Física Grave Cometida ,267** ,321** ,304** -,056 ,166 -,170 Violência Física Grave Sofrida ,268** ,216* ,200* ,176 ,350* ,312 Violência Física Menor Cometida ,244** ,289** ,275** ,253 ,181 ,158 Violência Física Menor Sofrida ,278** ,252** ,226** ,087 ,176 ,377* Agressão Psicológica Grave Cometida ,218** ,188* ,254** ,032 ,123 ,104 Agressão Psicológica Grave Sofrida ,285** ,271** ,298** -,061 ,090 -,071 Agressão Psicológica Menor Cometida ,301** ,261** ,361** ,147 ,260 ,207 Agressão Psicológica Menor Sofrida ,349** ,245** ,340** -,059 ,080 ,007 IJC Interpersonal Jealousy Scale Total ,301** ,252** ,290** -,159 -,016 -,181 ICRF1- Não contato com o parceiro ,307** ,320** ,307** ,271 ,307 ,255 ICRF2- Contato parceiro/rival ,329** ,266** ,335** ,164 ,217 ,181 ICRF3- Reações agressivas ao parceiro ,321** ,358** ,299** ,191 ,316 ,292 ICRF4- Reações agressivas ao rival ,252** ,312** ,261** ,192 ,225 ,247 ICRF5- Autoestima ,181* ,190* ,113 ,201 -,016 ,025 ICRF6- Investigação ,279** ,257** ,292** -,090 ,079 ,043 * p<0,05; **p<0,01 Tabela 2. Correlações das dimensões de ciúme e violência conjugal com a saúde mental de homens e mulheres Quaderns de Psicologia | 2023, Vol. 25, Nro. 2, e1921 10 Chaves Lemos, Dayse; Falcke, Denise; Oliveira, Eduarda Lima de Conforme a tabela, verificam-se associações entre quase todas as dimensões de ciúme e violência com a saúde mental feminina, indicando que maiores níveis de ciúme e violência se associam com maiores índices de ansiedade, depressão e estresse nas mulheres. Em contrapartida, na amostra masculina, somente houve correlação da violência física grave sofrida pelos homens com a ansieda- de e da dimensão de violência física menor sofrida com o estresse. Comparação dos dados sociodemográficos com a violência, ciúme e saúde mental Foram testadas comparações entre grupos conforme algumas características sociodemográficas da amostra, considerando as dimensões da violência conju- gal, o ciúme e os indicadores de adoecimento mental. Na comparação das vari- áveis, considerando a situação conjugal, foi observada diferença significativa apenas em uma dimensão da violência conjugal, a coerção sexual menor do companheiro (U= 2383,000; p= 0,027), em um fator de ciúme ICRF3 que avalia as reações agressivas direcionadas ao parceiro (U=2691, 000; p=0,023) e em to- dos os fatores de saúde mental, ansiedade (U=2026,000; p<0,001), depressão (U=2174,000; p<0,001) e estresse (U= 2299,000; p=0,002). Foram observadas maiores médias em todos os fatores para os casais que moram juntos em com- paração aos casados oficialmente: coerção sexual menor do companheiro (m=102,04 e m= 86,42, respectivamente); ICRF3 (m=109,08 e m=89,36); ansie- dade (m=118,98 e m=82,62); depressão (m=114,63 e m=83,72) e estresse (m=112,60 e m=85,40). Comparando os grupos que possuem e não possuem filhos, foi constatada dife- rença significativa somente nos fatores de saúde mental: ansiedade (U= 3270,000; p=0,007); depressão (U= 3390,500; p=0,027) e estresse (U=3270,500; p=0,010), com maiores médias para os sujeitos sem filhos em comparação aos com filhos: ansiedade (m=104,62 e m= 83,75, respectivamente); depressão (m=102,14 e m=84,92); estresse (m=104,62 e m= 84,15). No que diz respeito à escolaridade dos sujeitos, nesta amostra, houve diferença significativa em sete dimensões da violência conjugal e dois fatores da saúde mental, não havendo diferença significativa nos fatores de ciúme. A Tabela 3 apresenta as diferenças encontradas. Considerando se exerce ou não atividade remunerada, foram observadas dife- renças significativas em três fatores do ciúme: IJC total (U=1800,500; p=0,003); ICRF2 (U=1983,500; p=0,015) e ICRF3 (U=2074,000; p=0,019). Nos três fatores, foi observado que aqueles que não exercem atividade remunerada apresentam médias significativamente maiores - IJC total (m= 112,34); ICRF2 (m=112,14); ICRF3 (m=112,89) — do que aqueles que exercem atividade remunerada — IJC http://quadernsdepsicologia.cat Ciúme, Violência Conjugal e Saúde Mental: Prevalência e Fatores Associados 11 total (m=84,18); ICRF2 (m=88,31); ICRF3 (m= 90,14). Não houve diferença signi- ficativa entre exercer atividade remunerada e os fatores da violência conjugal e da saúde mental. Dimensão Escolaridade Médias H P Ensino Médio 101,82 Violência Física Grave Cometida Ensino Superior 83,52 9,154 p=0,010 Pós-Graduação 84,62 Ensino Médio 97,54 Violência Física Grave Sofrida Ensino Superior 84,31 7,333 p=0,026 Pós-Graduação 80,58 Ensino Médio 113,86 Violência Física Menor Cometida Ensino Superior 86,36 11,118 p=0,004 Pós-Graduação 85,75 Ensino Médio 105,16 Violência Física Menor Sofrida Ensino Superior 84,21 11,591 p=0,003 Pós-Graduação 78,40 Ensino Médio 108,45 Lesão Corporal Menor Cometida Ensino Superior 93,04 11,870 p=0,003 Pós-Graduação 88,63 Ensino Médio 111,02 Lesão Corporal Menor Sofrida Ensino Superior 90,19 12,281 p=0,002 Pós-Graduação 93,31 Ensino Médio 98,59 Agressão Psicológica Menor Cometi- Ensino Superior 87,29 6,015 p=0,049 da Pós-Graduação 74,64 Ensino Médio 125,20 Ansiedade Ensino Superior 86,93 13,572 p=0,001 Pós-Graduação 86,57 Ensino Médio 119,00 Estresse Ensino Superior 85,44 9,087 p=0,011 Pós-Graduação 89,65 Tabela 3. Comparação entre dimensões da violência conjugal, ciúme, saúde mental e escolaridade Ao ser analisada a renda dos sujeitos só foi constatada diferença significativa em um fator da violência conjugal, que se refere à violência física menor do su- jeito (H=9,703; p=0,046), com médias maiores para os indivíduos que ganham até 1 salário-mínimo (m=93,02), seguido daqueles que têm como renda 2 a 3 Quaderns de Psicologia | 2023, Vol. 25, Nro. 2, e1921 12 Chaves Lemos, Dayse; Falcke, Denise; Oliveira, Eduarda Lima de salários mínimos (m= 84,15); 3 a 5 salários mínimos (m= 83,28); 5 a 10 salários mínimos (m= 70,85) e mais de 10 salários mínimos (m= 62,44). Não foi consta- tada diferença significativa entre a renda dos sujeitos no que diz respeito ao ciúme ou à saúde mental. A variável religião e “já fez/não fez psicoterapia” não apresentou diferença significativa nos índices de violência conjugal, ciúme e saúde mental. DISCUSSÃO A partir dos resultados apresentados, percebe-se os elevados índices de violên- cia psicológica sofrida e cometida por homens e mulheres, sendo essa principal manifestação de violência identificada no estudo. A violência psicológica é uma das dimensões que se apresenta em nível elevado nos relacionamentos conju- gais, porém, pelo fato de ser sutil e não ser materializada, muitas vezes é na- turalizada e não reconhecida como violência nas relações por parceiros íntimos (Colossi e Falcke, 2013). Quando ocorre comparação entre os sexos, percebe-se diferenças significativas entre homens e mulheres no índice de coerção sexual menor. Os homens apre- sentaram níveis mais elevados de coerção sexual menor cometida, indicando significativamente maior insistência de fazer sexo sem utilização de força física ou obrigar a parceira a ter relações sem preservativo. Os índices dessa violên- cia encontrados nesse estudo são superiores aos encontrados em outras pesqui- sas que abordam a violência conjugal, que também já evidenciam maior índice de coerção sexual praticada pelos homens (Colossi, Marasca et al., 2015; Mada- lena et al., 2015), alertando para a necessidade de atenção a esse fenômeno, possivelmente reflexo de uma cultura patriarcal ainda arraigada em nosso con- texto. A violência física grave cometida apresentou divergência em relação ao que as pesquisas sobre violência conjugal apontam, pois, na presente investigação, as mulheres indicaram cometer significativamente mais do que os homens. O fe- nômeno da violência conjugal, em uma perspectiva sistêmica, pode apresentar- se de forma bidirecional e ser cometida tanto por homens quanto por mulheres (Rosa e Falcke, 2014; Falcke et al., 2017), porém na amostra investigada as mulheres indicaram cometer significativamente mais violência física grave do que os homens, revelando a necessidade de atentar para a vitimização mascu- lina, especialmente pelo fato de a violência contra o homem não ser tão abor- dada nos estudos sobre os relacionamentos íntimos (Alvim e Souza, 2005). Des- taca-se também que esse dado se refere a percepção delas sobre a violência cometida, sendo necessário atentar para a diferença de poder ofensivo da vio- http://quadernsdepsicologia.cat Ciúme, Violência Conjugal e Saúde Mental: Prevalência e Fatores Associados 13 lência física cometida por homens e mulheres, considerando que envolve o uso da força (Gomes et al., 2011). Os resultados do presente estudo evidenciaram também maiores índices de ci- úme total e de fatores de ciúme nas mulheres em comparação aos índices apre- sentados pelos homens. O ciúme, quando toma proporções grandes e se torna patológico, pode causar consequências significativas ao indivíduo refletindo em danos a sua saúde mental e até mesmo ocasionando danos ao seu companheiro (a), tendo em vista que comportamentos agressivos estão associados a ocorrên- cia de ciúme, contra o outro ou a si mesmo, pois o comportamento ciumento pode ser disparador da violência cometida pelo parceiro (Adeodato et al,, 2005; Almeida et al., 2008; Marques e Coleta, 2010; Swan et al., 2012). Na correlação das variáveis do ciúme e violência conjugal, foi observado que as mulheres apresentaram correlação positiva em quase todos os fatores de ciúme e violência conjugal, assim como com as dimensões de saúde mental, ansieda- de, depressão e estresse. A correlação existente entre essas variáveis foi fraca em todas as dimensões, mas o fato de ter ocorrido em quase todos as variáveis mostra como a ansiedade, depressão e estresse podem estar relacionados ao ciúme e violência conjugal (Albuquerque et al., 2013; Almeida et al., 2008; Carneiro et al., 2017; Do Vale e Pimentel, 2017). Esses altos índices corroboram com o que a literatura aponta a respeito dos efeitos do ciúme e da violência conjugal na saúde mental (Almeida et al., 2008; Carneiro et al., 2017; Rolim e Falcke, 2017). Não foram encontrados estudos que expliquem as diferenças dos efeitos do ciúme e da violência conjugal entre homens e mulheres. Sabe-se, no entanto, que existem mais estudos que abordam o efeito da violência conjugal na saúde mental das mulheres (Holanda et al., 2017), sendo que no que diz respeito à relação da violência conjugal na saúde mental do homem, os estudos são mais escassos. Os altos índices de ciúme apresentados pelas mulheres nesta amostra podem ser relacionados aos índices de violência física grave cometida pelas mulheres, visto que os estudos já abordam o ciúme como preditor da violência, mas o abordam mais na perspectiva da violência cometida pelos homens (Machado e Matos, 2014). Estudo prévio já indicou que o ciúme pode estar associado à vio- lência cometida pelas mulheres (Swan et al., 2012), destacando a necessidade de atenção aos relacionamentos nos quais o ciúme se faz presente, como forma de prevenção à ocorrência de violência. Além disso, é necessário considerar que a violência no casal tende a ser percebida como menos grave quando asso- ciada ao ciúme, pois o ciúme gera uma maior aceitação social da violência. Es- sa é uma situação perigosa, que favorece a legitimação da violência nos relaci- Quaderns de Psicologia | 2023, Vol. 25, Nro. 2, e1921 14 Chaves Lemos, Dayse; Falcke, Denise; Oliveira, Eduarda Lima de onamentos íntimos, sendo preciso combater esse tipo de crença socialmente (Costa et al., 2016). Na comparação dos dados sociodemográficos com a violência conjugal, ciúme e saúde mental, considerando a situação conjugal (casais casados civilmente x uniões estáveis), foram observadas diferenças significativas em um fator da vio- lência: coerção sexual sofrida, em um fator de ciúme ICRF3, que diz respeito às reações agressivas direcionadas ao parceiro, e em todos os fatores de saúde mental: ansiedade, depressão e estresse, com piores índices para casais em uniões estáveis. Estudos já abordam essa diferença significativa entre os níveis de violência conjugal presente nas uniões estáveis, em comparação com os ní- veis apresentados pelos casais casados civilmente (Colossi, Razera et al., 2015; Holanda et al., 2017). Este resultado pode estar associado à importância atri- buída ao ritual do casamento e a oficialização dos relacionamentos conjugais como fator protetivo da violência nos relacionamentos íntimos, visto que o ca- sal atribui um significado emocional à essa legalização. A existência ou não de filhos não se mostrou associada à ocorrência de ciúme e violência nos relacionamentos. Todavia, os resultados mostraram que os casais sem filhos apresentaram significativamente níveis maiores de depressão, ansie- dade e estresse. Esse dado pode estar relacionado a uma série de fatores, den- tre eles o maior envolvimento com outras áreas da vida, como trabalho, por exemplo (Rios, 2007) ou frustração com a expectativa pela parentalidade (Um- berson et al., 2010). A escolaridade, no entanto, foi o fator que mostrou mais diferenças significativas. Os dados mostram que quanto menos escolaridade, mais violência era cometida e sofrida nos relacionamentos conjugais. Como a literatura já aborda, esses dados podem ser explicados pelo fato de que o nível de argumentação se amplia com o aumento da escolaridade, ou seja, pessoas que estudam mais têm maior poder de argumentação, o que faz com que, nas discussões, essas pessoas utilizem mais da argumentação verbal do que da vio- lência para resolução de conflitos (Colossi, Razera et al., 2015; Holanda et al., 2017). Dois fatores de saúde mental, a ansiedade e o estresse, também apre- sentaram diferenças significativas na comparação da escolaridade, estando mais presentes em pessoas com menores níveis de escolaridade. No fator exercer ou não atividade remunerada, as diferenças significativas apresentadas foram em três fatores do ciúme, no qual as pessoas que não exer- cem atividade remunerada apresentaram maiores níveis de ciúme em compara- ção aquelas que exercem. Considerando a centralidade do trabalho na vida das pessoas, pessoas sem exercer atividade remunerada podem se sentir em des- vantagem em relação a possíveis pessoas que ameacem a relação conjugal, mostrando-se mais ciumentas em decorrência de sentimentos de inferioridade http://quadernsdepsicologia.cat Ciúme, Violência Conjugal e Saúde Mental: Prevalência e Fatores Associados 15 (Buss, 2000). Neste sentido, indivíduos com menores rendas reportaram prati- car mais violência física menor nos relacionamentos íntimos. As maiores médias de violência nesse fator foram obtidas por indivíduos com renda pessoal de até um salário-mínimo. A baixa renda já vem sendo associada como fator preditivo da violência conjugal em estudos prévios, sendo que famílias em situação de maior vulnerabilidade social podem ter mais ocorrência de violência conjugal, pois essas famílias geralmente encontram-se expostas a mais fatores estresso- res (Colossi, Razera et al., 2015; Holanda et al., 2017). CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do estudo realizado pode-se observar que os índices de violência conju- gal verificados nesta pesquisa foram elevados, especialmente considerando-se que a amostra não foi derivada de contextos clínicos. Além disso, constatou-se que as correlações entre as variáveis de ciúme, violência conjugal e saúde mental foram significativas, especialmente na amostra feminina, e muitas vari- áveis sociodemográficas apresentaram diferenças significativas ao serem com- paradas com fatores de ciúme, violência conjugal e saúde mental, demandando atenção às mesmas como possíveis fatores de risco para a ocorrência desses fe- nômenos. Assim, foi possível observar que a partir da descrição da prevalência do ciúme, da violência conjugal e dos fatores de saúde mental (ansiedade, depressão e estresse) e sua relação com os fatores sociodemográficos, é relevante refletir em como os contextos de violência conjugal podem estar relacionados a fatores tanto individuais quanto sociais. A baixa escolaridade, menor renda e situação conjugal de união estável foram fatores que, conforme os dados do presente estudo, demandam ser observados para a compreensão da violência nos relaci- onamentos íntimos, tendo em vista que a diminuição de estressores sociais, psicoeducação sobre a violência e formas de resolução de conflitos podem pro- piciar melhora nesse cenário. Além disso, é relevante rever as crenças relacio- nadas ao ciúme como forma de prevenção ou intervenção à violência, visto que o fenômeno da violência conjugal pode se apresentar de maneira complexa e com muitas peculiaridades. Intervenções pautadas no entendimento do sujeito de forma holística, portanto, se fazem necessárias para que a violência nos re- lacionamentos conjugais seja tratada de maneira mais abrangente. Este estudo não tem a pretensão de generalizar os dados, mas pode trazer um novo olhar a respeito desse tema tão complexo e direcionar que novas pesqui- sas sejam feitas para melhor entendimento do tema, visto que aponta alguns fatores de risco que geram a violência conjugal e danos à saúde mental que podem ser trabalhados para melhora da qualidade de vida dos indivíduos. En- Quaderns de Psicologia | 2023, Vol. 25, Nro. 2, e1921 16 Chaves Lemos, Dayse; Falcke, Denise; Oliveira, Eduarda Lima de tende-se que, principalmente através do uso da psicoeducação e intervenções psicoterapêuticas, que possam abranger a maior diversidade de pessoas possí- vel, é possível minimizar os danos da violência na conjugalidade, compreen- dendo as características sociodemográficas que possam estar relacionadas à vi- olência, assim como empenhar um olhar mais relacional de como esses fatores circulam sistemicamente, para que seja possível a descontinuidade desses pa- drões desadaptativos. Futuros estudos com foco na análise da recursividade das variáveis, assim como pesquisa com díades conjugais, podem contribuir para ampliar a compreensão do fenômeno. REFERÊNCIAS Adeodato, Vanessa Gurgel; Carvalho, Racquel dos Reis; Siqueira, Verônica Riquet & Souza, Fábio Gomes de Matos (2005). Qualidade de vida e depressão em mulheres ví- timas de seus parceiros. Revista Saúde Pública, 39(1), 108-113. https://doi.org/10.1590/S0034-89102005000100014 Albuquerque, Fernando Pessoa de; Barros, Claudia Renata dos Santos & Schracher, Li- lia Blima (2013). Violência e sofrimento mental em homens na atenção primária à saúde. Revista saúde pública, 47(3), 531-539. https://doi.org/10.1590/S0034-8910.2013047004324 Almeida, Thiago de; Rodrigues, Kátia Regina Beal & Silva, Ailton Amélio da (2008). O ciúme romântico e os relacionamentos heterossexuais contemporâneos. Estudos de Psicologia, 13(1), 83-90. https://doi.org/10.1590/S1413-294X2008000100010 Alvim, Simone Ferreira & Souza, Lídio (2005). 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