13 Submissão: 10/01/2023 Aprovação: 08/04/2023 Publicação: 26/09/2023 Volume 36 No. 3 Setembro - Dezembro 2023 BRAZILIAN ZOOARCH DATABASE (ZOOARCHBR): BANCO DE DADOS DA DOSSIÊ FAUNA ARQUEOLÓGICA DO BRASIL Thiago Fossile* Jessica Ferreira** Andre Carlo Colonese*** RESUMO O Brazilian Zooarch Database (ZooarchBR) é o primeiro banco de dados zooarqueológico colaborativo e de acesso aberto do Brasil, em que o usuário pode visualizar e contribuir na inserção de novos dados para expansão da fauna registrada em sítios arqueológicos no país. Atualmente, o ZooarchBR é composto por 71 publicações produzidas entre 1975 e 2022 que resultou em 366 espécies de 374 sítios arqueológicos. Até o momento, todos os dados são da costa sul do Brasil. Índices de riqueza e abundância foram gerados a partir dos dados publicados. Ainda, é possível caracterizar o contexto cultural em que um espécime foi coletado. Neste artigo, mostramos as possibilidades de aplicação do ZooarchBR para a Arqueologia e Biologia da Conservação. Palavras-chave: zooarqueologia; banco de dados; litoral sul do Brasil. * Universidade Autônoma de Barcelona. E-mail: thiago.fossile@uab.cat ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6997-4677. ** Universidade da Região de Joinville (Univille). E-mail: jessferreira.f@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2124-2757. *** Universidade Autônoma de Barcelona. E-mail: andrecarlo.colonese@uab.cat ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0279-6634. DOI: https://doi.org/10.24885/sab.v36i3.1088 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 BRAZILIAN ZOOARCH DATABASE (ZOOARCHBR): DATABASE OF THE DOSSIER ARCHAEOLOGICAL FAUNA OF BRAZIL ABSTRACT The Brazilian Zooarch Database (ZooarchBR) is the first collaborative and open access zooarchaeological database in Brazil, where the user can view and contribute by entering new data to expand the faunal records in archaeological sites of the country. Currently, ZooarchBR comprises 71 publications produced from 1975 to 2022 that resulted in 366 species from 374 archaeological sites. To date, all data are from the southern coast of Brazil. Indices of species richness and abundance were generated using published data. Additionally, the database allows for the characterization of the cultural context in which a specimen was found. In this article, we show the possibilities of using ZooarchBR for Archaeology and Conservation Biology. Keywords: zooarchaeology; database; southern coast of Brazil. BRAZILIAN ZOOARCH DATABASE (ZOOARCHBR): BASE DE DATOS DE DOSIER LA FAUNA ARQUEOLÓGICA DE BRASIL RESUMEN La Brazilian Zooarch Database (ZooarchBR) es la primera base de datos zooarqueológica colaborativa y de acceso abierto en Brasil, en la cual el usuario puede visualizar los datos disponibles y contribuir a la inserción de nueva información para la expansión de la fauna registrada en sitios arqueológicos del país. Actualmente, la ZooarchBR se compone de 71 publicaciones producidas entre 1975 y 2022, que incluye un total de 366 especies recuperadas de 374 sitios arqueológicos. Hasta el momento, todos los datos pertenecen a la costa sur de Brasil. A partir de las publicaciones se generó el índice de riqueza y abundancia de la base de datos. Además, es posible caracterizar el contexto cultural en el que se recolectó cada espécimen. En este artículo, se muestran las implicaciones de la ZooarchBR para la Arqueología y la Biología de la Conservación. Palabras clave: zooarqueología; base de datos; litoral sur de Brasil. Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 312 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 INTRODUÇÃO A humanidade, a partir das adaptações e habilidades para dominar o ambiente ao longo de sua evolução, desenvolveu um papel fundamental na relação com a fauna, o qual pode ser observado por meio de registros arqueológicos. Desta maneira, há a necessidade de compreender a complexidade cultural por meio da interação com a fauna, a fim de levantar interpretações sobre a subsistência e sustentabilidade. Nesse sentido, temos o privilégio de estudar um território conhecido pela maior diversidade biológica do mundo: o Brasil, um país com grande variedade de ecossistemas, no qual destacamos a Mata Atlântica e Floresta Amazônica com a maior diversidade de reserva biológica do planeta. Sua dimensão, associada à localização geográfica, influencia na biodiversidade, bem como no grande histórico de formação milenar das paisagens. Diante de tamanha pluralidade, não é de se surpreender que em um país-continente ocorra também uma complexidade cultural ampla formada por uma heterogeneidade de povos pré-coloniais. Em resultado, durante os últimos 48 anos diversos cientistas realizaram estudos e pesquisas no Brasil a fim de compreender as interações entre sociedades e meio ambiente, resultando em uma produção considerável de estudos zooarqueológicos que vem promovendo dados de alto interesse para a comunidade científica, tanto na Arqueologia como na Biologia da Conservação (FOSSILE et al., 2019; ASSUMPÇÃO et al., 2022; MENDES; SILVA; DUARTE, 2020). No litoral sul do Brasil, os estudos sistemáticos de zooarqueologia se iniciaram nos anos 1970 em cerritos no bioma Pampa, Rio Grande do Sul (SCHORR, 1975). Passados aproximadamente 20 anos, os estudos se centraram na costa sul da Mata Atlântica, Santa Catarina (ex. BANDEIRA, 1992). Apesar de apenas quase 50 anos de publicações zooarqueológicas, estas apresentaram informações cruciais para compreender a complexidade cultural dos povos pré-coloniais no que se refere à técnicas de caça, pesca e coleta, bem como à aplicações da fauna na subsistência (uso alimentar, construtivo e utilitário [ex. anzóis e pontas/bipontas]) e em cerimônias ritualísticas (uso simbólico) (FERREIRA et al., 2019; KLOKLER, 2016; PROUS, 2018). Embora os aspectos culturais denotem certa seletividade, estudos têm demonstrado que os dados arqueofaunísticos possuem elevado potencial para fornecer informações únicas da biodiversidade pretérita, e da estrutura e função de ecossistemas (STAHL, 2008; LYMAN, 2017; FOSSILE et al., 2023). Tais informações contribuem nas abordagens sobre a ecologia de espécies e ambientes, a fim de auxiliar em análises de conservação e preservação, por exemplo, a respeito da defaunação (BOGONI et al., 2018; GALETTI et al., 2017). Apesar desse potencial, até recentemente, os estudos zooarqueológicos no Brasil estavam mais focados na identificação das espécies e ambientes explorados pelos grupos arqueológicos. No entanto, houve tentativas recentes de integrar essas informações aos debates sobre conservação, buscando compreender melhor o papel histórico da biodiversidade passada e sua relevância para a conservação dos ecossistemas atuais (MENDES; SILVA; DUARTE, 2020; LOPES et al., 2016; FOSSILE et al., 2020, 2019; SILVA et al., 2017; SOUZA et al., 2016). A abundância de dados zooarqueológicos em desenvolvimento no Brasil contribuem para aprofundar conhecimentos acerca dos povos pré-coloniais e apresentar registros da fauna até então nunca documentada sistematicamente, considerando a cronologia e a localização dos sítios arqueológicos. No entanto, torna-se essencial a unificação dessas informações, seguindo o exemplo dos bancos de dados de biodiversidade atuais (IUCN, 2022; GBIF.org, 2023; SiBBr, 2022) e de algumas iniciativas arqueológicas internacionais (MONDINI et al., 2013; LEFEBVRE et al., 2019). Embora existam publicações bem desenvolvidas que apresentam checklists de espécies da arqueofauna no Brasil (SOUZA; Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 313 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 LIMA; SILVA, 2010; LOPES et al., 2016; MENDES; DUARTE; SILVA, 2018; FOSSILE et al., 2020), a ausência de um banco de dados unificado e disponível para a comunidade científica dificulta uma visão ampla sobre a paleodiversidade existente no território brasileiro. Neste contexto, este artigo busca apresentar um banco de dados a fim de unificar as informações da arqueofauna brasileira, bem como o contexto cultural em que esta foi coletada. ZOOARCHBR: CONSTRUINDO O BANCO DE DADOS Revisão da literatura e registro dos dados O Brazilian Zooarch Database (ZooarchBR) é o primeiro banco de dados colaborativo e de acesso aberto do Brasil a respeito da fauna arqueológica, em que o usuário, além de visualizar os dados disponíveis, também pode contribuir na expansão do registro zooarqueológico do país. O ZooarchBR é uma base de dados em formato OpenDocument (“.ods”), em processo de integração ao Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira, SiBBr (SiBBr, 2022, mais detalhes adiante), que reúne informações zooarqueológicas georreferenciadas de diferentes fontes bibliográficas em formato físico e eletrônico. Atualmente, essas informações são representadas por artigos científicos (55%), dissertações e teses acadêmicas (38%) e capítulos de livros (7%), e estão disponíveis em repositórios institucionais como universidades, museus e bibliotecas públicas, além de plataformas editoriais como Scielo e Scopus. Foram e serão considerados apenas estudos que utilizaram coleções de referência e revisados por especialistas. Esse critério de seleção visa assegurar a qualidade e a confiabilidade das informações presentes na base de dados, garantindo que os dados zooarqueológicos disponibilizados sejam embasados em trabalhos acadêmicos e estudos criteriosamente desenvolvidos. Devido à grande extensão do Brasil e sua elevada quantidade de sítios arqueológicos, neste primeiro momento, limitamos nossa revisão a sítios costeiros da Região Sul, usando uma distância máxima de 100 km da linha de costa atual. Essa distância foi definida a partir da distribuição da população global próxima à costa (SMALL; NICHOLLS, 2003), e levando em consideração que o nível relativo do mar durante o Holoceno Médio (aprox. + 3 m) deslocou o litoral mais para o interior em áreas com declives suaves (ANGULO; LESSA; SOUZA, 2006; TONIOLO et al., 2020). O litoral sul do Brasil, representado pelos estados do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, é caracterizado pela sua exuberante diversidade de espécies e ecossistemas, bem como pela importância socioambiental e socioeconômica dos biomas Mata Atlântica e Pampa (PAGLIA et al., 2002; COSTA et al., 2017). Os ecossistemas costeiros foram vitais para populações indígenas antes e durante o estabelecimento dos europeus no século XVI (MILHEIRA; DE-SOUZA; IRIARTE, 2019), com evidências de ocupação desde há cerca de 9000 anos (DIAS, 2003). A Tradição Umbu (há 9000 anos), os Sambaquis (7000 a 500 anos), os Cerritos (4.700 a 200 anos), a Tradição Taquara-Itararé (1200 a 500 anos) e os Tupiguaranis e Guaranis (há 1000 anos) são marcos arqueológicos relevantes na região (DIAS, 2003; GASPAR et al., 2008; MILHEIRA; GARCIA, 2018; BANDEIRA, 2004; MILHEIRA; WAGNER, 2014). Cada um desses grupos e períodos representam momentos importantes da história das populações indígenas que habitaram o litoral sul do Brasil, e deixaram sua marca na paisagem e nos ecossistemas costeiros. Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 314 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 A coleta de dados segue os critérios qualitativos e quantitativos propostos por Fossile e demais autores (2020): Referência A (quali-quantitativo) – apresentou identificações taxonômicas detalhadas e abundância absoluta e relativa para todos os táxons [Número de Espécimes Identificados (NISP) e/ou Número Mínimo de Indivíduos (MNI)]; Referência B (semiquantitativo) – apresentou identificações taxonômicas detalhadas e abundância absoluta e relativa para alguns táxons selecionados; Referência C (qualitativo) – apresentou identificação taxonômica sem informação quantitativa. Devido aos diferentes tipos de dados apresentados nas publicações, as informações referentes à diversidade faunística foram registradas em uma tabela com a riqueza e outra com a abundância de espécies. Nos casos em que os dados de determinado sítio foram publicados mais de uma vez, para a perspectiva de abundância foi selecionada a publicação mais detalhada em termos taxonômicos e quantitativos. A nomenclatura científica e atribuições ecológicas seguem as informações de World Register of Marine Species, WoRMS (HORTON et al., 2020), Eschmeyer’s Catalog of Fishes (FRICKE; ESCHMEYER; VAN DER LAAN, 2021), MolluscaBase (AUFFENBERG et al., 2020), FishBase (FROESE; PAULY, 2021), Animal Diversity Web, ADW (MYERS et al., 2020), Brazilian Ornithological Records Committee (PACHECO et al., 2021), Reptile Database (UETZ, 1995) e Amphibian Species of the World (FROST, 2020). O status de conservação das espécies foi compilado a partir das listas vermelhas de espécies ameaçadas da International Union for Conservation of Nature, IUCN (2022) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, ICMBio (BRASIL, 2018). Quanto à elaboração das listas de espécies, a riqueza específica foi calculada utilizando o Nível Mínimo de Identificação Taxonômica (MLTI), representando, portanto, a quantidade mínima de espécies. A frequência dos taxa é expressa pelo número de sítios arqueológicos em que foram registrados, enquanto a abundância é expressa usando o Número de Espécimes Identificados (NISP, relatado em 96% das Referências A e B atualmente compiladas), e quando este não é fornecido, utilizou-se o Número Mínimo de Indivíduos (MNI, relatado em 4% das Referências A e B). As informações agregadas nestes índices de biodiversidade refletem múltiplos eventos de coleta e captura faunística por diferentes grupos humanos ao longo de milhares de anos. Contudo, é necessário salientar as diferenças significativas na coleta de informação primária (REITZ; WING, 1999), ou seja, referente à recuperação dos restos arqueológicos apresentados e discutidos em vários trabalhos. Por exemplo, constatam-se discrepâncias nas malhas utilizadas (de 5 a 2 mm), além de nem sempre estar claro o uso de coleções de referências e o volume de sedimento utilizados para a recuperação dos restos. Dado o impacto dos métodos de recuperação nos dados quantitativos (número de exemplares e espécies) e qualitativos (tipos de espécies) (ZOHAR; BELMAKER, 2005; GRAYSON, 2014; JAMES, 1997; REITZ; WING, 1999), sublinha-se a necessidade de cautela no uso dos dados coletados para inferência sobre a representação e abundância das espécies encontradas nos sítios arqueológicos. Integração dos dados zooarqueológicos às plataformas de biodiversidade Os dados são compostos por informações sobre o contexto arqueológico em que o registro faunístico foi coletado (ex. nome do sítio arqueológico, atribuição cultural e datação radiocarbônica) e informações qualitativas e quantitativas a respeito da fauna. Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 315 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 Além do material suplementar disponível no repositório Zenodo (https://doi.org/ 10.5281/zenodo.8198809), o conjunto de dados está em processo de integração ao SiBBr (2022), e estará disponível no primeiro semestre de 2024, seguindo o padrão Darwin Core (DwC), um padrão internacional reconhecido pela comunidade científica para metadados. O SiBBr é um conjunto de dados e informações sobre a biodiversidade e os ecossistemas brasileiros desenvolvido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com apoio técnico da ONU Meio Ambiente (PNUMA) e apoio financeiro do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), e vinculado ao Global Biodiversity Information Facility (GBIF), fornecendo subsídios para a gestão governamental relacionada à conservação e ao uso sustentável. Os usuários, além de visualizarem os dados disponíveis no ZooarchBR, também podem contribuir com a inserção de novos dados para expandir o registro da fauna em sítios arqueológicos pré-coloniais e históricos do Brasil. Para publicar seus dados na plataforma, o usuário deve preencher o formulário disponível em https://forms.gle/YxBK3wrzk3AcFuXYA. Será necessário anexar o documento de origem dos dados (artigo, tese etc.) com o nome do autor principal, ano de publicação e o tipo de publicação (ex. Fossile et al., 2023, artigo) e uma tabela editável contendo nome do sítio arqueológico, atribuição cultural, cronologia, longitude e latitude do sítio e volume (l, cm³ ou m³) de sedimento relativo a amostra analisada, bem como informações zooarqueológicas, como classe animal, taxonomia, nome comum da espécie, e, caso possua, também o Número de Espécimes totais analisados (NSP), incluindo os restos/fragmentos não identificados (ex. Animalia), e NISP (ver Tabela 1 em Material Suplementar). Com esta integração pretendemos propiciar uma maior visibilidade e acesso mundial aos estudos da zooarqueologia neotropical e, portanto, a possibilidade de contribuir para a construção participativa do conhecimento e gestão da biodiversidade e dos recursos naturais. RESULTADOS Literatura zooarqueológica e sítios arqueológicos Atualmente, o ZooarchBR é composto por 71 publicações produzidas entre os anos de 1975 e 2022, com um aumento exponencial ao longo dos anos (Gráfico 1A, Tabela 2 em Material Suplementar). Uma dessas publicações contempla dados de sítios encontrados nos três estados da Região Sul (SOUZA; LIMA; SILVA, 2011). Santa Catarina apresenta o maior número de publicações (n = 42), seguido do Rio Grande do Sul (n = 26) e Paraná (n = 5) (Gráfico 1B, Tabela 2 em Material Suplementar). A literatura é composta, atualmente, por 55% de artigos científicos (n = 39 publicações), 38% de dissertações e teses acadêmicas (n = 27 publicações) e 7% de capítulos/livros (n = 5 publicações). A maioria das publicações se enquadram na categoria qualitativo-quantitativo (n = 43), seguido pelas categorias semiquantitativo (n = 19) e qualitativo (n = 9). Tratando-se sobre as categorias das publicações, Santa Catarina apresenta a maior quantidade de dados (com dados qualitativo e quantitativo), seguido pelo Rio Grande do Sul e Paraná (Gráfico 1B). Algumas publicações são especializadas em grupos taxonômicos particulares, tais como moluscos (FERREIRA, 2017; SOUZA; LIMA; SILVA, 2011; GERNET; BIRCKOLZ, 2011), peixes (HILBERT, 2011; CARDOSO, 2011), e mamíferos marinhos (CASTILHO, 2008). No entanto, a integração dos dados e das publicações fornece uma visão geral e única da diversidade de espécies recuperadas no registro arqueológico neotropical. Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 316 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 Gráfico 1. (A) Distribuição cronológica e (B) espacial das publicações zooarqueológicas na costa sul do Brasil. Fonte: Elaboração nossa. Em relação aos sítios arqueológicos, um total de 374 sítios foram mapeados na costa sul do Brasil entre a latitude 25.2°S e 31.6°S, contemplando os biomas Mata Atlântica (89%) e Pampa (11%). O Paraná apresenta o maior número de sítios (n = 171 sítios), seguido por Santa Catarina (n = 149 sítios), e Rio Grande do Sul (n = 54 sítios) (Mapa 1, Tabela 3 em Material Suplementar). Curiosamente, o Paraná apresenta a maior quantidade de sítios arqueológicos, no entanto, é o estado com a menor quantidade de estudos, especialmente com dados quantitativos (Mapa 1, Tabela 2 em Material Suplementar). Esse cenário desperta interesse para futuras pesquisas a fim de preencher essa lacuna de conhecimento sobre a arqueofauna da região, contribuindo para uma compreensão mais abrangente da biodiversidade pretérita e dos ecossistemas que existiram nessa área. Os sítios foram datados por radiocarbono entre 8800 ± 40 anos AP (Sangão – DIAS, 2003) e 280 anos ± 50 AP (RS-LC-80 – ROGGE, 2006), e foram associados à tradições culturais distintas, incluindo forrageadores não cerâmicos do Holoceno inicial ao tardio (Umbu), pescadores e horticultores do Holoceno tardio (Sambaquis, Cerritos, Taquara/ Itarare, Tupiguarani e Guarani). Dada a natureza variável dos depósitos arqueológicos (cemitérios coletivos, áreas cerimoniais, residenciais) e as diferenças entre esses sistemas socioecológicos (demográfico, organização social, orientação econômica), os restos faunísticos refletem, parcialmente, percepções humanas-ambientais distintas e interações com a diversidade faunística local. Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 317 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 Mapa 1. Distribuição dos sítios arqueológicos mapeados e suas respectivas classificações de apresentação dos dados zooarqueológicos. Fonte: Elaboração nossa a partir de dados públicos da Embrapa (2021) e do IBGE (ASSIS et al., 2019). Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 318 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 Riqueza e abundância das espécies Um total de 569 taxa foram identificados em nove diferentes grupos taxonômicos: Mollusca (n = 205), Actinopterygii (n = 128), Mammalia (n = 106), Elasmobranchii (n = 47), Aves (n = 41), Reptilia (n = 23), Crustacea (n = 14), Echinodermata (n = 3), e Amphibia (n = 2) (Tabela 4 em Material Suplementar). Quando consideramos o MLTI, a riqueza específica da arqueofauna é de 366 espécies. Em geral, o banco de dados é dominado por invertebrados (160 espécies; 44%), seguido por vertebrados aquáticos (143 espécies; 39%) e terrestres (63 espécies; 17%). Os invertebrados são representados predominantes por moluscos com 151 espécies, seguidos por crustáceos (oito espécies) e equinodermos (uma espécie) (Gráfico 2A). Entre os vertebrados, os peixes ósseos e cartilaginosos predominam com 109 espécies, seguido pelos mamíferos (n = 63), pelas aves (n = 21), pelos répteis (n = 12) e pelos anfíbios (uma espécie) (Gráfico 2B). Referente a abundância, um total de 1.601.147 espécimes identificados (NISP) foram encontrados em 74 sítios (n = 20% dos sítios mapeados). Estes sítios estão distribuídos entre Santa Catarina (n = 38), Rio Grande do Sul (n = 35) e Paraná (n = 1) (Tabela 5 em Material Suplementar). Em relação à frequência de ocorrência, os moluscos também representam o grupo taxonômico mais frequente, com Anomalocardia flexuosa ocorrendo em 71% dos sítios (n = 267), seguido por Phacoides pectinatus (38%; n = 141 sítios), Mytella guyanensis (26%; n = 97 sítios), entre outros. Os peixes ósseos aparecem em sequência, com Micropogonias furnieri (10%; n = 37 sítios), Pogonias courbina (9%; n = 34 sítios), ambos Sciaenidae, seguidos por Ariidae (8%; n = 30 sítios), entre outros. Restos de aves foram encontrados em 8% dos sítios (n = 30). A classe dos mamíferos (Mammalia) ocorre em 7% dos sítios (n = 27), representados por Cavia aperea (6%; n = 23 sítios), Hydrochoerus hydrochaeris (5%; n = 20 sítios) e Cervidae (5%; n = 19 sítios), entre outros. Dentre os mamíferos marinhos, Delphinidae ocorre em 3% dos sítios (n = 10), seguido de Otariidae (2%; n = 9 sítios) e Cetacea (2%; n = 9 sítios), dentre outros. Os tubarões e as raias (Elasmobranchii) apareceram em 5% dos sítios, e são representados por Myliobatidae (3%) e Carcharias taurus (3%), entre outros. Répteis, crustáceos, anfíbios e equinodermos foram identificados com frequência inferior a 2,5%. Embora alguns táxons tenham sido relatados em centenas e dezenas de sítios, 43% da fauna (n = 246 taxa) ocorrem em menos de 1% dos sítios (n ≤ 3 sítios) (Tabela 4 em Material Suplementar). Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 319 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 Gráfico 2. Riqueza específica de (A) invertebrados e (B) vertebrados separados por classe, ordem ou família taxonômica. Fonte: Elaboração nossa. Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 320 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 DISCUSSÃO Contribuições do ZooarchBR à arqueologia e ao incentivo à produção científica Diante da distribuição das publicações e dos sítios arqueológicos mapeados para a costa sul e disponíveis no ZooarchBR, é possível mapear regiões que necessitam um maior aprofundamento de estudos zooarqueológicos, levantar e rever hipóteses científicas, refletir sobre as metodologias de recuperação e análise dos restos faunísticos, fomentar colaborações entre grupos de pesquisa e auxiliar os órgãos financiadores a direcionar recursos públicos. Por exemplo, o Paraná apresenta a maior quantidade de sítios arqueológicos no database (n = 171 sítios), no entanto é o estado com o menor número de publicações (n = 5). Dessas publicações, quatro apresentam dados qualitativos e apenas um apresenta dados semiquantitativos. Na sequência, estão Santa Catarina (n = 149 sítios) e o Rio Grande do Sul (n = 54 sítios), com um total significativo de 42 e 26 publicações, respectivamente (Gráfico 1A e B). Observam-se também discrepâncias metodológicas na recuperação dos restos faunísticos, que inevitavelmente influenciam a qualidade dos dados e as interpretações arqueológicas que possam derivar. É de amplo conhecimento o efeito das diferentes malhas de peneira na quantidade e tipo de restos faunísticos recuperados (GRAYSON, 2014; REITZ; WING, 1999), que nos trabalhos analisados variam de 5 a 2 mm (entre as Referências A e B), por tanto conferindo espectros faunísticos potencialmente distorcidos em diferentes medidas. Em termos quantitativos, a ausência de volume de sedimento associado aos restos faunísticos (ex. NISP/m3 e NISP/L) em vários estudos impossibilita qualquer aproximação quantitativa absoluta, comprometendo a possibilidade de inferir a contribuição de vários animais nos processos de construção de alguns sítios, na dieta e em outros aspectos de vida cotidiana. Os dados coletados, portanto, nos permitem entender o potencial e as fraquezas do registro faunístico produzido no sul do Brasil nos últimos quase 50 anos, e convidam a reflexões científicas de suma importância diante do desafio ético de trabalhar com um recurso não renovável como o patrimônio arqueológico. Além disso, os dados do ZooarchBR são essenciais para outras linhas de trabalho emergentes na arqueologia brasileira, como análises de isótopos estáveis, paleoproteômica e paleogenética. Por exemplo, a partir das análises isotópicas do carbono (δ13C) e nitrogênio (δ15N) em colágeno humanos podemos identificar suas preferências alimentares, como os ambientes (marinho, água doce ou terrestre) e a posição trófica das espécies exploradas por eles no passado (herbívoros, omnívoros e carnívoros) (TOSO, et al. 2021; BASTOS et al., 2022; PEZO-LANFRANCO; COLONESE, 2022). No entanto, este tipo de análise necessita de uma base da zooarqueologia para auxiliar na interpretação dos resultados. A análise paleoproteômica baseada em sequências de peptídeos do colágeno (ZooMS – BUCKLEY et al., 2014) necessita de um banco de dados de referência com sequenciamento de aminoácidos das espécies, o qual neste momento se concentra predominantemente a espécies da Europa e Ásia, com alguns da América do Norte. Desta maneira, o ZooarchBR fornece uma diretriz para a ampliação deste banco de dados com espécies da América Latina. Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 321 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 Criando linhas de base para a biodiversidade Um conceito que tem recebido atenção crescente desde o final do século XX é a Síndrome de Mudanças de Linhas de Base (Shifting Baseline Syndrome). A linha de base é um ponto de referência fundamental para avaliar mudanças ao longo do tempo e espaço (PAULY, 1995; KLEIN; THURSTAN, 2016), sendo essencial na Ecologia para compreender padrões de distribuição, abundância, cadeias alimentares e a estrutura da comunidade (JACKSON; JACQUET, 2011). Estudos têm buscado conhecer a fauna prístina, auxiliando na sustentabilidade e revitalização de espécies impactadas por alterações ambientais (ERLANDSON; RICK, 2008; MCKECHNIE et al., 2014). Nesse sentido, os sítios arqueológicos fornecem valiosas informações sobre biodiversidade passada e mudanças no meio ambiente, permitindo uma perspectiva completa das alterações ocorridas na natureza ao longo do tempo. Os invertebrados possuem uma alta diversidade e abundância no registro arqueológico. Restos de invertebrados também foram o foco principal da maioria das publicações, fato que poderia ter favorecido – junto a uma melhor preservação e visibilidade – sua maior frequência comparado aos demais grupos taxonômicos. Dentre os moluscos, se destaca a Anomalocardia flexuosa, que apresentou a maior frequência de ocorrência e abundância, espécie que teve sua concha utilizada intencionalmente como matéria prima na construção de montes, e muitas vezes monumentais, conhecidos como sambaquis (VILLAGRAN et al., 2011). Além disso, estudos paleoambientais realizados no litoral de Santa Catarina indicam que essa espécie era abundante durante o Holoceno médio e recente (CANCELLI et al., 2017). Em relação aos vertebrados, os peixes predominam na assembleia, provavelmente devido à intensificação da pesca realizada na maioria das tradições registradas no banco de dados. Por exemplo, produtores da tradição cerâmica Taquara-Itararé e os Sambaquis apresentam o maior número de registros de sítios, os quais aproveitavam largamente dos recursos pesqueiros (FOSSILE et al., 2020; TOSO et al., 2021). Entre as espécies registradas, destaca-se a frequência significativa de Micropogonias furnieri, Pogonias courbina e Ariidae. Essas espécies são frequentes no litoral sul, além de visadas pela produção pesqueira atual e um dos principais recursos alimentares para mamíferos marinhos e aves marinhas residentes na região (HAIMOVICI; CARDOSO, 2016; GERHARDINGER et al., 2020). Referente aos mamíferos, as espécies do registro arqueológico estão entre as espécies mais frequentes nos dias atuais (SOUZA et al., 2019; FIGUEIREDO et al., 2017). Este fato que pode indicar que os povos pré-coloniais estariam explorando as espécies disponíveis no ambiente, sem necessariamente uma preferência alimentar. Por exemplo, os roedores Cavia aperea e Hydrochoerus hydrochaeris habitam variados tipos de ambientes próximos ao ambiente aquático e formam grupos de até 14,8 indivíduos/hectare, podendo ter até duas ninhadas/ano em condições favoráveis (REIS et al., 2006). Destaca-se também a elevada frequência de aves no registro arqueológico. Embora sejam difíceis de identificar taxonomicamente a nível específico (ex. gênero e espécie) devido à sua fragilidade e, em muitos casos, a falta de coleção de referência especializada, as aves representam 6% das espécies identificadas (n = 21). É importante observar que algumas variações espaciais e temporais são provavelmente atribuídas a processos tafonômicos diferenciais operando em escala local e/ou viés das pesquisas (ex. processamento por diferentes atribuições culturais e Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 322 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 metodologias de escavação e amostragem) que podem influenciar significativamente nas comparações entre sítios. Portanto, ao levantar abordagens sobre a composição da arqueofauna, recomenda-se levar em consideração os diferentes métodos e técnicas de coleta, bem como seu contexto cultural. No entanto, os dados zooarqueológicos disponíveis podem contribuir e dialogar com a Biologia da Conservação, preenchendo lacunas biogeográficas e fornecer informações preciosas sobre as espécies ameaçadas de extinção, e também sobre as espécies classificadas com dados deficientes para uma avaliação de ameaça. Integrando a zooarqueologia com a biologia da conservação Os dados arqueofaunísticos têm muito a contribuir aos debates e às políticas públicas relacionadas com a conservação e restauração ambiental. Importantes questões ambientais só podem ser abordadas de forma eficaz se os fatores antropogênicos e naturais forem compreendidos de uma perspectiva histórica ( JACKSON, 2010; ROBERTS, 2003). A falta de tais perspectivas temporais de longo prazo pode causar equívocos sobre a extensão e a taxa de alterações do ecossistema (SOGA; GASTON, 2018; PAULY, 1995). Isso é de particular importância em hotspots de biodiversidade, que são regiões que sofrem perda excepcional de habitats e biodiversidade (MYERS et al., 2000), como a Mata Atlântica e o Pampa. Os restos faunísticos de sítios arqueológicos se tornam uma ferramenta possível, útil e muitas vezes única para obtenção de dados pretéritos sobre espécies alvos, ambientes, padrões e métodos de captura (ex. pesca e caça), e dimensão corporal dos indivíduos, ambos fontes valiosas de linhas de base ecológicas ( JACKSON et al., 2001). De acordo com as listas vermelhas da International Union for Conservation of Nature (2022) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (BRASIL, 2018), pelo menos 57 espécies recuperadas em 14% dos sítios mapeados (n = 54) estão atualmente ameaçadas dentro das categorias Vulnerável (VU), Em perigo (EN) e Criticamente em perigo (CR) (Gráfico 3, Tabela 4 em Material Suplementar). Além desses, dentes de Carcharhinus isodon, espécie classificada como Regionalmente Extinta (RE) na costa brasileira (BRASIL, 2016a, 2016b), foram encontrados em sambaquis da Baía Babitonga (Itacoara e Bupeva II) no litoral norte de Santa Catarina (BANDEIRA, 2004). Esta correlação com o status de conservação atual das espécies é de suma importância para avaliar o histórico temporal e espacial de determinada espécie no paleoambiente e correlacionar com sua ocorrência atual. À exemplo da possibilidade de uso do ZooarchBR na Biologia da Conservação, selecionamos o Tayassu pecari, uma espécie de mamífero ameaçada e registrada em diversos sítios que possibilitou desenvolver um mapa de distribuição de ocorrência desta espécie em tempos pretéritos e comparar com sua ocorrência em tempos atuais baseada nos dados disponíveis pela IUCN (Mapa 2). Além das espécies ameaçadas (VU, EN e CR), o ZooarchBR pode contribuir para a avaliação de risco de extinção de pelo menos 16 espécies classificadas como Dados Deficientes (DD) pelo ICMBio (BRASIL, 2018) e pela IUCN (2022). Uma espécie é classificada nesta categoria quando há necessidade de mais informações (ex. distribuição e abundância) para fazer uma avaliação adequada. Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 323 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 Gráfico 3. Espécies ameaçadas nas listas vermelhas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio (BRASIL, 2018) e da International Union for Conservation of Nature – IUCN (IUCN, 2022). Fonte: Elaboração nossa. Além das espécies ameaçadas, temos as espécies exóticas, tais como Subulina octona, Rattus novergicus e Bos taurus que possivelmente refletem processos pós-deposicionais relacionados a ocupações posteriores e ao desenvolvimento urbano das áreas costeiras. Dados como estes também podem trazer discussões sobre os impactos antrópicos recentes em sítios arqueológicos, bem como auxiliar no mapeamento da distribuição de espécies invasoras no Brasil (ROSA et al., 2020). Além disso, as informações sobre espécies exóticas podem ainda contribuir em discussões sobre a descrição de espécies como exóticas ou não, à exemplo o mexilhão Perna perna que é encontrado em sítios arqueológicos, mas é considerado um organismo bioinvasor (PIERRI; FOSSARI; MAGALHÃES, 2016; SILVA et al., 2018). Por fim, o ZooarchBR também pode servir como base para fomentar políticas públicas de cunho socioeconômico. O ZooarchBR apresenta 18 espécies de peixes, moluscos e crustáceos registradas como de importância socioeconômica no Plano de Ação Nacional para a Conservação das Espécies Ameaçadas e de Importância Socioeconômica do Ecossistema Manguezal (PAN Manguezal), criado por meio da Portaria nº 647/2019 e desenvolvido com apoio dos representantes de povos e comunidades tradicionais (BRASIL, 2015). A partir do mapeamento da distribuição dessas espécies de importância socioeconômica é possível, por exemplo, levantar discussões e ações voltadas à criação de unidades de conservação que contemplem o uso sustentável dos recursos (THOMPSON, et al. 2020; REEDER-MYERS et al., 2022). Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 324 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 Mapa 2. Distribuição geográfica arqueológica (estrela) e atual do porco do mato Tayassu pecari na costa sul do Brasil. Fonte: Elaboração nossa a partir de dados públicos da IUCN (2022), Embrapa (2021) e do IBGE (ASSIS et al., 2019). Banco de dados da fauna arqueológica do Brasil | Thiago Fossile et al 325 REVISTA DE ARQUEOLOGIA VOLUME 36 N. 3 SETEMBRO-DEZEMBRO 2023 311-331 CONSIDERAÇÕES FINAIS Estamos apenas começando a compreender as consequências ecológicas acerca do colapso e esgotamento de espécies, e da perda de habitats em ecossistemas costeiros, particularmente estuarinos, costões ou fundos rochosos, baías, lagoas marginais e praias arenosas, considerados como base fundamental da produtividade marinha que alimentou sociedades humanas há milhares de anos (ERLANDSON; RICK, 2008). No entanto, diante das informações compiladas no ZooarchBR, podemos estar a um passo mais próximo de responder questões como: o território brasileiro possui o título de maior biodiversidade mundial somente nos tempos atuais? Os registros arqueológicos podem manter o país neste patamar no paleoambiente holocênico? O quanto a pluralidade dos povos pré-coloniais e coloniais pode influenciar na composição da reserva biológica atual? Apesar de não termos as respostas para estas questões, o ZooarchBR talvez seja a única ferramenta de difusão de conhecimento sobre a biodiversidade existente desde o paleoambiente holocênico que poderá promover a unificação das informações da zooarqueologia brasileira e contribuir com dados exclusivos e integrativos na arqueologia e biologia da conservação. AGRADECIMENTOS Este trabalho foi financiado pelo projeto ERC Consolidator TRADITION, que recebeu financiamento do European Research Council (ERC) no âmbito do programa de pesquisa e inovação Horizonte 2020 da União Europeia sob o Convênio de Subvenção nº 817911. Este trabalho contribui para o grupo de pesquisa EarlyFoods, que recebeu financiamento da Agència de Gestió d’Ajuts Universitaris i de Recerca de Catalunya (SGR-Cat 2021, 00527). Este trabalho também contribui para o Programa “María de Maeztu” para Unidades de Excelência do Ministério de Ciência e Inovação da Espanha (CEX2019-000940-M) conferido ao ICTA-UAB. 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