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Universitat Autnoma de Barcelona

Alguns textos de Borges Coelho

(2003). As Duas Sombras do Rio. Lisboa: Caminho

Leónidas Ntsato piscou os olhos. A fita negra da margem alongava-se na vertical: à esquerda, o céu azul brilhante; à direita, com uma cor quase idêntica, o rio fugindo para o alto. Subindo essas íngremes águas avançava penosamente uma almadia mas estava demasiado distante para que ele pudesse reconhecer o remador. Só o seu casco escuro cuja nitidez contrastava com o reflexo trémulo que fazia nas águas – tudo vertical, as duas manchas solidárias trepando para o alto.
E assim era porque Leónidas Ntsato se encontrava deitado com a face pousada na areia da pequena praia fluvial. Soergueu-se e lentamente tudo pareceu voltar ao normal. As verticalidades tornaram a deitar-se, ficando na sua posição de sempre. A almadia vogava agora na posição correcta, deixando um risco compridíssimo à superfície da água como o fazem todas as almadias, embora ele continuasse sem reconhecer o remador. Mas se havia coisas que voltavam a encaixar nos seus lugares outras permaneciam por explicar. Olhou em volta e não encontrou os seus pertences: faltava-lhe a rede de pesca, o saco que o acompanhava sempre, enfim, o velho chapéu de palha. Nada que fosse dele se espalhava em redor e, mais estranho ainda, não conseguiu descortinar a sua própria almadia. A bem dizer, este último enígma só gradualmente foi surgindo como tal, à medida que ele dava a volta à pequena ilha onde se encontrava, rio meio do rio, e a almadia continuava por aparecer.
Pensou em pedir ajuda mas não se via vivalma. Regressou ao ponto de partida. Olhou em volta. No meio do rio o remador parecia agora avançar na direcção oposta. Horizontal (que agora Ntsato se encontrava bem de pé), mas já sem a mesma convicção, deixando na água não mais um risco direito mas grandes esses ondulantes, como que querendo aproximar-se primeiro de uma margem, depois da outra. Uma almadia indecisa.
Talvez porque o sol se encontrasse no pino ou por qualquer razão inexplicável, tudo começou a brilhar como se as partículas de ar explodissem em pequenos sóis amarelos. Ntsato esfregou repentinamente os olhos com as mãos, procurando habituar-se àquele brilho cru que o incomodava e confundia. Um pouco adiante, de volta ao rio, o risco deixado pela almadia era agora uma gigantesca cobra reluzente e silenciosa contorcendo-se à flor da água. Uma cobra da qual, como um corpo só, a almadia e o remador constituíam a cabeça. A grande cobra do M’bona, a origem do mundo e de todas as coisas. Uma cobra portadora de presságios. Ntsato sobressaltou-se com aquela visão embora a cobra não revelasse intenções agressivas nem parecesse sequer ter notado a sua presença. Procurou-lhe os olhos mas não conseguiu entender se o que via era mesmo o relampejar do seu olhar ou os pequenos reflexos do sol à superfície da água.
Assustado, desviou o olhar para sul, para a margem algo distante (que o rio aqui é largo). Como sempre, vista dali a margem estava negra e com os detalhes esbatidos pela distância. Aguçou o olhar e pareceu-lhe descortinar nela gogantescas bocas de leão, muito abertas, ao mesmo tempo que aos seus ouvidos delirantes chegava o som cavo do seu rugido, entoado em uníssono:
- Vôôôôôô!
Por detrás da fita escura da costa lavrava uma gigantesca queimada e os seus fumos eram agora os vapores exalados pelas fauces das hediondas bestas e as faúlhas como que o reluzir fulminante do seu olhar, ora rubras ora amarelas – o amarelo de ódio dos leões.
Rodopiando sobre si próprio, Leónidas Ntsato caiu de joelhos, o peito sacudindo-se descompassadamente, e acabou por tombar de novo com a face na areia, na mesmíssima posição em que se encontrava quando acordara ainda há pouco.

(2004). As Visitas do Dr. Valdez. Lisboa: Caminho
Foi então que se desapertou um pouco o corpete, pressionado pelos peitos fartos da velha senhora, e dali dentro jorrou uma cascata brilhante de moedas [...]. Quantas mãos calejadas as tiveram que afagar para que ficassem lisas daquela maneira, sem rebordos angulosos, os desenhos mortiços, os olhos das efígies já baços e sem brilho. Cegos barbudos. Senhoras cegas [...]. Moedas que passaram pelas mãos nervosas de piratas, alisadas pelo seu sarro antigo, cheirando ao suor e ao medo dos escravos; moedas de Goa, austríacas, transportadas em navios com nomes como Giuseppe & Tereza, Príncipe Ferdinando e Santo António das Almas, alvas como o algodão colhido e odiado, ou da cor do sisal e do coco; moedas com a dor e o empenho do trabalho, que revelam a diversidade de um tempo que vai chegando ao fim [...]. Brilhando mais que todas, grossas libras de ouro inglesas, mais recentes, as rainhas de todas as moedas. Saltam e rodopiam como loucas. Abafadas durante tanto tempo em arca pousada na penumbra de um qualquer compartimento, e depois naqueles peitos transitórios, soltam-se alegres pela escada abaixo, espalhando-se pelo espaço amplo da placa do aeroporto. Como se cada uma procurasse o seu refúgio (p. 10-11).

(2005). Índicos Indícios I. Setentrião. Lisboa: Caminho
Poderia esta história ter sido como uma grossa e sedosa trança de mulher, todas as dikiri se enrolando a caminho do futuro para fazer uma só irmandade pura e forte. Poderia, é certo, mas assim não aconteceu. E enquanto dois ramos escuros se tresmalham – a Naquira do patrão Rashid cada vez mais se perdendo nas luxúrias africanas, a Qadiriyya de Abdurrahman cada vez mais se curvando, se prestando a servir infiéis senhores – no centro, um ténue mas alvíssimo bordado representa a Shadhuliyya Madaniyya, confraria de Jamal, impoluta e inabalável na defesa da fé (“O Pano Encantado”, p. 41-42)

(2005). Índicos Indícios II. Meridião. Lisboa: Caminho
É quase sempre assim, fazendo os demais ideia da nossa pessoa como se fosse uma certeza e nós tendo outra. Sendo que se a deles busca a força naquilo que em nós vê, palavra ou gesto, alegria e até fúria, imaginando depois o resto, desconhecendo no entanto quanto a vida nos obriga a ser dissimulados. Aos interiores, por nos estarem nos recônditos do corpo, só nós próprios lá chegamos e portanto só nós podemos deles falar com propriedade. Embora também possa ser que, por convivermos com os outros todos os dias, cheguemos por vezes a enganarmo-nos, parecendo-nos normal e rotineiro o que há muito deixou de o ser e, nesse sentido, ganhando certa importância a opinião alheia, por ser ela, nesses casos, que nos desengana de nós próprios. Por isso se dizendo que podem os outros levar-nos a cairmos em nós (“Implicações de um naufrágio”, p. 44).

(2006). Crónica da Rua 513.2. Lisboa: Caminho
Mbeve é um artista. Não pelo simples facto de tocar saxofone (seria simplista a redução, pois há quem toque e não passe de um mero funcionário de sons), mas porque, embora o faça para completar o salário, a música é para ele o principal. Passa o dia de trabalho na Fábrica – às voltas com guias de remessa, papéis de importação de levedura, chatices com os conservantes – mas a sua cabeça foge quase sempre para o saxofone. Tremem-lhe as anafadas carnes só de pensar nele. O instrumento dá-lhe poder. Não só pela música mas por tudo o que a envolve: as palmas regulares, os hurras e os gritos sempre que um solo mais livre, num dia em que as válvulas estejam efectivamente vedando, comprova a sua mestria. Embora por fora seja um amanuense que toca nas horas vagas, por dentro sente-se um incompreendido e moçambicano Coltrane disfarçado de funcionário. Ao contrário dos normais artistas, sempre confiantes de que a sua hora acabará por chegar um dia, Josefate conclui com tristeza que a dele lhe passou ao largo. Não só devido à idade, E ao facto de ter começado tarde a descobrir que, por detrás dos sons que os padres lhe ensinavam havia outros mais próximos daquilo que sentia, mas também por causa da geografia: quem iria reparar que num canto perdido de África há um músico com imenso potencial à espera de ser descoberto? Além disso, os tempos que correm também não ajudam, cada vez mais a revolução tirando espaço às alegrias de cada um para poder espraiar uma alegria só, imensa e colectiva. Para que, tal como no resto, também em termos de alegrias não haja ricos nem pobres. Por isso é cada vez maior a desconfiança das influências estrangeiras que possam entrar pelas fronteiras, sem dúvida para vir conspurcar esta nossa alegria colectiva que tanto custou a conquistar (p. 144).

(2007). Campo de Trânsito. Lisboa: Caminho
No outro extremo do pátio, um edifício de celas igual ao seu, baixo e comprido. Junto ao chão uma fiada de pequenas janelas gradeadas, iguais à sua. Saindo por entre as grades, mãos de detidos tentando despertar a atenção de quem passa – funcionários do Comando entrando ao serviço, meros visitantes ocasionais à procura de uma informação ou um parente – para enviar um recado ou simplesmente pedir um cigarro. Mãos enclavinhadas, contorcendo-se entre as grades como se lá de dentro faltasse o ar. Mãos de esquecidos, mãos de mortos aflorando do subsolo num derradeiro apelo. Mungau afasta as suas próprias mãos das grades com um calafrio. Nada o une àquela gente (p. 17-18).

(2008). Hinyambaan. Lisboa: Caminho
"Então?’, pergunta Henrietta Odendaal impaciente.
‘Calma!’, diz Djika-Djika. ‘Vovó Thum já é velha, já não tem a rapidez de antigamente. Cheira mais lento...’
Não cheira mas vê. E viu, antes do jantar, que as crianças brincavam correndo numa determinada direcção. Se correram para ali, certamente que é lá que terão deixado o cheiro.
[...]
‘Vovó Thum diz que o menino foi por ali’, responde Djika-Djika. ‘Diz que não há que enganar. O menino é especial, tem poderes de chamar a chuva: onde estiver molhado é onde está o menino esperando por nós!’” (p., 71-72).

(2010) O olho de Hertzog. Lisboa: LeYa
Tínhamos o formato da cobra e o pendor felino do leão, se é que me entende. Sei o que vais dizer-me. Que volto à convocação dos animais da floresta, que o faço sempre que me falta a arte de descrever os homens como humanos, de explicar os seus procedimentos. [...] lamento mas não posso abdicar desta imagem que me parece ir ao âmago da coluna, capaz de representar com exactidão a natureza dos que a integravam [...] Diria que tacticamente, naquilo que era visível, éramos uma cobra serpenteando por entre as árvores, ao longo das margens dos rios; umas vezes lenta, outras disparando com grande rapidez em direcção ao objectivo. Já quanto à estratégia, tínhamos, desse ponto de vista, a voracidade de um leão, a eficácia das suas patadas mortíferas que deixam rasgos fundos, feridas irreversíveis (p. 298).

(2011). Cidade dos Espelhos. Lisboa: Caminho
Em resultado, chegam em momentos bem diferentes à Ponte da Liberdade, pouco mais que imperceptível viaduto cruzando o velho rio transformado há cinquenta anos em velho canal, há trinta em velha coisa nenhuma; depressão eivada de inqualificáveis objetos, quase todos sólidos, e que está ali para separar o que era livre do que não era, isto no tempo em que se atribuía importância a tais distinções